17/08/2010

OMUNGA: CARTA ABERTA AO PRESIDENTE DO MPLA - INTROMISSÃO AMEAÇADORA NA VIDA DAS ASSOCIAÇÕES

REF.ª: OM/ __ 202 __ /10
LOBITO, 11 de Agosto de 10
C/c: Exmo. Sr. Presidente da República de Angola – LUANDA
Exmo. Sr. Presidente da Assembleia Nacional – LUANDA
Exma. Sra. Ministra da Justiça – LUANDA
Exma. Sra. Ministra da Comunicação Social – LUANDA
Exmo. Sr. Ministro da Administração do Território – LUANDA
Exmo. Sr. Procurador geral da República – LUANDA
Exmo. Sr. Secretário de Estado para os Direitos Humanos – LUANDA
Exmo. Sr. Provedor de Justiça – LUANDA
Exmo. Sr. Relator Especial para os Defensores de Direitos Humanos das Nações Unidas – Genebra
Exma. Sra. Relatora Especial para o Direito à Habitação Adequada – Genebra
Exma. Sr. Comissário para os deslocados internos da Comissão Africana dos Direitos Humanos e dos Povos – Banjul
Exmos. Srs. Membros do Conselho Nacional da Comunicação Social – LUANDA
Exmo. Sr. Juiz Presidente do Tribunal Constitucional – LUANDA
Exmo. Sr. Juiz Presidente do Tribunal Supremo – LUANDA
Exmo. Sr. Juiz Presidente do Tribunal de Contas – LUANDA
Exmos. Srs. Moradores da Feira do Lobito – LOBITO

Ao Exmo. Sr.
Presidente do MPLA
L U A N D A

ASSUNTO: CARTA ABERTA SOBRE A INTROMISSÃO AMEAÇADORA DO PARTIDO MPLA NA VIDA DAS ASSOCIAÇÕES E NA LIMITAÇÃO DO ESPAÇO DA CIDADANIA PROMOVIDO PELOS ÓRGÃOS DE COMUNICAÇÃO SOCIAL PÚBLICOS

Os nossos melhores cumprimentos.

A associação OMUNGA tem vindo a acompanhar de forma directa e preocupante o agravar da ameaça a partir de membros do vosso partido, contra as associações de defensores de Direitos Humanos em Angola, com especial destaque para com a nossa associação OMUNGA.

A 10 de Junho de 2010, os participantes do IV Acampamento de Defensores de Direitos Humanos dos Países Africanos de Língua Portuguesa, realizado em Benguela, endereçaram uma carta ao presidente da República Democrática do Congo, Exmo. Sr. General Joseph Kabila Kabange, a exigir responsabilidades pelo assassinato do grande defensor de Direitos Humanos, Sr. Floribert Chebeya. Este foi mais um dos sinais da enorme preocupação que as organizações de defensores de direitos humanos têm em relação às ameaças que os diferentes governos assumem contra elas.

No entanto, esta insultuosa intromissão tem vindo a merecer a maior divulgação e enfâse propagandístico por parte dos órgãos de comunicação social públicos sem que tenhamos encontrado limitação nesta monopolização. Tal falta de controlo, nos leva a dirigir cópia desta carta à Exma. Sra. Ministra da Comunicação Social e ao Conselho Nacional da Comunicação Social.

A nossa associação tem inúmeras vezes chamado à atenção para a responsabilidade do Estado de garantir a protecção dos defensores de direitos humanos através da correcta informação à população sobre o seu importante papel, imperativo para a construção da democracia e do Estado de Direito. Já mais recentemente, tivemos que nos deparar com tais agressões, quer do Exmo. Sr. Jaime Azulay, Secretário Provincial do Comité de Especialidade de Jornalistas do MPLA (Benguela) e ao mesmo tempo director provincial do Jornal de Angola, através da Emissora provincial de Benguela da RNA, quer do Secretário para a Informação do Comité Municipal do MPLA do Lobito.

Possivelmente nas notícias publicadas quer no site da Angop a 09 de Agosto de 2010, com o título “MPLA aconselha ONG's assumirem suas responsabilidades” e no site do Jornal de Angola a 10 de Agosto de 2010 com o título “MPLA critica postura dúbia no serviço de organizações” não se dê conta de um ataque directo à OMUNGA mas há de forma aberta uma ameaça às organizações de defensores de direitos humanos, nas quais a OMUNGA se sente enquadrada.

Estes posicionamentos ameaçadores à liberdade de associação, de pensamento e expressão, à cidadania e à promoção do Estado de Direito e Democrático, por parte de militantes do vosso partido MPLA, exigem de nós o recurso às instâncias competentes, nomeadamente, Presidência da República, Assembleia Nacional, Procuradoria geral da República, Tribunal Constitucional e Tribunal Supremo, para que interfiram no sentido de pôrem fim a tais ameaças e responsabilizá-los por qualquer limitação às liberdades e direitos, incluindo à vida, que a associação OMUNGA ou qualquer um dos seus membros possa vir a sofrer. Razão pela qual dirigimo-lhes cópia desta carta aberta.

Estas últimas ameaças aqui descritas, referem-se ao facto da OMUNGA vir-se a posicionar-se coerentemente contra o desalojamento forçado dos cidaãos residentes no recinto da feira do Lobito e contra a privatização daquele espaço público com o propósito de vir a ser destruído para a construção de um hotel conforme esclarecimentos prestados pelo Exmo. Sr. Governador da província de Benguela. Aproveitamos ainda para solicitar do Exmo. Sr. Presidente do MPLA esclarecimentos sobre a veracidade e legitimidade que o vosso partido possui para se considerar proprietário do recinto da Feira do Lobito, até agora considerado como espaço público e através disso se achar ente credível para privatizar o referido espaço a favor de outrém, de forma a que o Lobito deixará definitivamente de possuir um espaço colectivo como tal. Acreditamos que, se realmente o vosso partido MPLA seja o proprietário do espaço referido, trará a público, aos Lobitangas e, especialmente, aos moradores da Feira do Lobito, a necessária documentação. Esta preocupação, leva-nos a recorrer ao Exmo. Sr. Juíz Presidente do Tribunal de Contas como à Assembleia Nacional, para que investiguem a possibilidade de ter havido alienação indevida do património público em favor de um ente privado com propósitos contrários ao seu fim social, com os elevados prejuízos para a colectividade.

Aproveitamos para terminar, mencionando o facto de que Angola é membro, pela segunda vez, do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas e, por outro lado, que este mesmo Conselho adoptou a 25 de Março de 2010, a Resolução 13/13 “Protecção dos Defensores dos Direitos Humanos”, da qual realçamos que os “Estados devem criar um ambiente seguro e de apoio aos defensores de direitos humanos para agirem sem obstáculos e em segurança.”

Ainda a 10 de Junho de 2010, dentro do mecanismo de Revisão Periódica Universal do Conselho de Direitos Humanos, Angola aceitou, entre outras, as seguintes recomendações:

Manter um diálogo aberto com os defensores de direitos humanos, em particular em Cabinda, onde, na sequência do recente e deplorável ataque contra a equipa de futebol togolesa, os defensores dos direitos humanos parecem ter sido detidos sem evidência de sua cumplicidade;
Tomar e reforçar medidas para protecção dos defensores dos direitos humanos;
Garantir a complecta protecção e legitimidade dos defensores de direitos humanos de acordo com a Declaração dos Direitos Humanos das Nações Unidas;
Assegurar que os partidos políticos da oposição e as organizações da sociedade civil sejam autorizados a participar livremente no processo político, sem medo de retaliação;
Respeitar as actividades de organizações da sociedade civil e garantir que nenhuma acção levada a cabo para regulamentar organizações de direitos humanos seja politicamente motivada, mas baseada em provisões legais consistentes com os padrões internacionais de direitos humanos.

Tomando em conta que o Exmo. Sr. Presidente do MPLA dará a devida atenção ao exposto e responderá às preocupações aqui trazidas, aceite as nossas cordiais saudações.

José A. M. Patrocínio
Coordenador Geral

OMUNGA: CARTA ABERTA A ALBERTO NGONGO - ADMINISTRAÇÃO E MPLA, QUEM É QUEM NO PROCESSO DA FEIRA DO LOBITO?

REF.ª: OM/ __ 203 __ /10
LOBITO, 12 de Agosto de 10
C/c: Exmo. Sr. Presidente da República de Angola – LUANDA
Exmo. Sr. Presidente da Assembleia Nacional – LUANDA
Exma. Sra. Ministra da Justiça – LUANDA
Exma. Sra. Ministra da Comunicação Social – LUANDA
Exmo. Sr. Ministro da Administração do Território – LUANDA
Exmo. Sr. Procurador geral da República – LUANDA
Exmo. Sr. Secretário de Estado para os Direitos Humanos – LUANDA
Exmo. Sr. Provedor de Justiça – LUANDA
Exmo. Sr. Relator Especial para os Defensores de Direitos Humanos das Nações Unidas – Genebra
Exma. Sra. Relatora Especial para o Direito à Habitação Adequada – Genebra
Exma. Sr. Comissário para os deslocados internos da Comissão Africana dos Direitos Humanos e dos Povos – Banjul
Exmos. Srs. Membros do Conselho Nacional da Comunicação Social – LUANDA
Exmo. Sr. Juiz Presidente do Tribunal Constitucional – LUANDA
Exmo. Sr. Juiz Presidente do Tribunal Supremo – LUANDA
Exmo. Sr. Juiz Presidente do Tribunal de Contas – LUANDA
Exmos. Srs. Moradores da Feira do Lobito – LOBITO

Ao Exmo. Sr.
Alberto Ngongo
Att: Chefe da Repartição Social da Circunscrição da Administração Municipal do Lobito e Secretário para a Informação do Comité Municipal do MPLA do Lobito
L O B I T O

CARTA ABERTA: ADMINISTRAÇÃO E MPLA, QUEM É QUEM NO PROCESSO DA FEIRA DO LOBITO?

Os nossos melhores cumprimentos.


A associação OMUNGA tem vindo a acompanhar com muita preocupação, os mais variados pronunciamentos de pessoas e instituições, em relação ao processo da Feira do Lobito que envolve os seguintes aspectos:

1 – Verdadeiro proprietário do recinto e instalações da Feira do Lobito: Administração Municipal do Lobito ou MPLA?
2 – Fim social do recinto da Feira do Lobito: Espaço público de entretenimento ou privado de hotelaria?
3 – Assentamento das populações que vivem actualmente no recinto da Feira do Lobito: Responsabilidade do Estado pelo respeito dos Direitos e Dignidade Humana, ou uma acção de caridade com fins propagandísticos?

Gostaríamos de passar à análise dos aspectos anteriormente enunciados:

1 – Verdadeiro proprietário do Recinto e instalações da Feira do Lobito

Como todos sabemos, a Feira do Lobito sempre foi um espaço público de entreteniento e portanto um património colectivo. Durante o período que vivemos pós independência e de sistema político de partido único, aquele espaço passou a designar-se como feira do partido. Tal aconteceu, na altura, já que o “partido” (MPLA) era ao mesmo tempo o governo e o Estado.

Com a constituição da II República, onde foram imprimidas várias alterações, foi revisto o sistema político nacional, passando a vivermos num Estado pluri-partidário. Esta mudança não deve ser vista como algo abstrato, mas reflecte-se na prática com revisão de processos. Como estabelece a lei, qualquer assumpção de proprietário deve ser argumentada por documentação legal que lhe transfere tal poder e direitos subjacentes. Esta é a razão que leva o actual Executivo angolano em considerar que deve demoliar milhares de residências, desalojando milhares e milhares de pessoas, argumentando a sua ilegalidade.

Por isso, parece-nos estranho que continuemos a verificar posicionamentos que de forma pouco transparente, pretendem conferir legitimidade ao partido MPLA como proprietário do referido recinto e instalações. Pior ainda, verificamos o silêncio das instituições do Estado, responsáveis pelo respeito da legalidade e protecção do Estado de Direito e Democrático, em relação a este assunto.

Por várias vezes a OMUNGA exigiu a publicação da devida documentação que legitima o MPLA enquanto proprietário da citada Feira do Lobito, sem que tal acto tenha até hoje acontecido.

Assim sendo, e sempre considerando os interesses colectivos na protecção do património público, somos a considerar a Feira do Lobito enquanto espaço público a ser defendido em nome do bem comum.

2 – Fim social do recinto da Feira do Lobito

Obviamente que entendemos que, quando possam existir beneficícios concretos para a colectividade, se possa aceitar a alienação de património público em favor de entes privados. Esta decisão baseia-se sempre na avaliação do balanço entre os ganhos e perdas para a colectividade.

A cidade do Lobito perdeu definitivamente todos os espaços públicos, como praças, jardins, viveiros municipais, recintos destinados à prática desportiva, etc, sendo-lhes dirigido outros fins sociais como seja a construção de supermercados, prédios, restaurantes, etc.

A Feira do Lobito resta como o único e último espaço da cidade do Lobito que pode vir a ser utilizado como espaço colectivo para entretenimento. Ao se pretender destruir tal espaço e transformá-lo num hotel, deixaremos de beneficiar toda a colectividade e passar a beneficiar apenas algumas pessoas sem qualquer alternativa compensatória.

Deve-se aqui entender, como direito colectivo o direito à cidade por parte de todos os cidadãos. Direito este que a OMUNGA tem vindo a defender ao exigir o respeito pelos cidadãos e a defesa da manutenção da Feira do Lobito enquanto espaço de todos com o fim social de entretenimento.

3 – Assentamento das populações que vivem actualmente no recinto da Feira do Lobito

Como é do conhecimento de todos, vivem no recinto e instalações da Feira do Lobito, centenas de cidadãos em condições desumanas.

O Estado angolano tem responsabilidades para com os seus cidadãos no que se refere à garantia e protecção dos seus direitos. Por tal razão, é obrigação do Estado criar condições de habitabilidade para estas pessoas, independentemente de se pretender ou não reabilitar a Feira do Lobito. A actual situação em que vivem as referidas pessoas, já é em si uma responsabilidade do Estado, por não ter criado as devidas condições de habitabilidade.

Considerando a análise acima, enquanto ponto de partida, devemos agora analisar sobre quais deverão ser as responsabilidades do Estado em relação ao processo de desalojamento, deslocação e assentamento de todos estes cidadãos.

O delineamento de todo este processo deve tomar em conta, entre outros, diferentes aspectos como sejam a participação dos cidadãos, as condições de realojamento, o acesso a serviços, a garantia da protecção jurídica, etc.

Embora já consideremos um avanço no procedimento de desalojamento das pessoas, havendo já a garantia de que não será utilizada a força, ser-lhes-á disponibilizado terreno em zona urbanizada, com a cesso a serviços e a garantia da protecção jurídica, continuamos a não verificar qualquer mudança no que se refere à sua participação. Por tal razão ainda não foram avançados prazos nem tão pouco poderam os interessados ter contacto quer com o local de assentamento nem com o referido projecto de urbanização.

Pelo exposto, devemos entender que o assentamento condígno dos moradores da Feira do Lobito, é uma responsabilidade do Estado angolano e não deve vir a ser manipulado enquanto acção propagandística partidária.

Chamamos à atenção deste facto porque, mais uma vez, o processo de desalojamento da Feira do Lobito é-nos apresentado como dúbio. A 10 de Agosto de 2010, no site do Jornal de Angola aparecem duas notícias que envolvem o Exmo. Sr. Alberto Ngongo e referem-se à mesma actividade: encontro com os moradores da Feira do Lobito a 08 de Agosto de 2010. São eles:

Administração do Lobito atribui terrenos para moradias: Aqui o Exmo. Sr. Alberto Ngongo aparece como Chefe da Repartição Social da Administração do Lobito a falar à margem do encontro da direcção do MPLA com os moradores da Feira do Lobito, e
MPLA critica postura dúbia no serviço de organizações: Aqui, o Exmo. Sr. Alberto Ngongo aparece como Secretário para a informação do Comité Municipal do MPLA a falar durante um encontro da direcção do MPLA com os moradores da Feira do Lobito

Afinal o Exmo. Sr. Alberto Ngongo representava a Administração Municipal do Lobito ou o MPLA durante o encontro com os moradores da Feira do Lobito? As promessas de terreno foram apresentadas enquanto garantias da Administração Municipal do Lobito ou promessas do MPLA? Achamos muito importante que se analise tais intervenções, razão pela qual voltamos a solicitar a intervenção de todas as instituições do Estado no sentido de esclarecem publicamente a situação.

Por último queremos frisar e deixar claro que a OMUNGA continuará a desenvolver as suas acções, enquanto uma associação de defesa de direitos humanos, não cedendo a nenhum tipo de ameaças nem de intromissões abusivas, resguardando-se sempre no respeito pela lei.


Tomando em conta que o Exmo. Sr. Alberto Ngongo (Chefe da Repartição Social da Administração do Lobito e Secretário para a Informação do Comité municipal do MPLA do Lobito) dará a devida atenção ao exposto e responderá às preocupações aqui trazidas, aceite as nossas cordiais saudações.


José A. M. Patrocínio
Coordenador Geral

OMUNGA: CARTA ABERTA A CAVACO SILVA - II

REF.ª: OM/ __ 198 __ /10
LOBITO, 10 de Agosto de 10

Ao Exmo. Sr.
Cavaco Silva
Att: Presidente da República Portuguesa


ASSUNTO: CARTA ABERTA SOBRE ALIANÇA ESTRATÉGICA ENTRE PORTUGAL E ANGOLA NO DOMÍNIO DA PROMOÇÃO E PROTECÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS

Os nossos melhores cumprimentos.

Aquando da visita de Sua Ex.ª Sr. Presidente de Portugal a Angola, a OMUNGA endereçou-lhe uma carta com a Ref.ª OM/191/10 e com o mesmo assunto da presente.

A OMUNGA lembrava a importância que a “aliança estratégica” entre Angola e Portugal, se estenda, para além das áreas económica, militar, social e cultural, à dimensão da promoção e protecção dos direitos humanos.

Lembrou a recomendação feita por Portugal a Angola durante o processo de Revisão Periódica Universal do Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, (130) de “levar a cabo a indispensável reabilitação e reconstrução urbana em conformidade com a legislação relevante e os padrões internacionalmente aceites de direitos humanos.”, enquanto frisava que “infelizmente, continuamos a depararmo-nos com milhares e milhares de famílias a viver em condições precárias e subhumanas devido a acções de demolições e desalojamentos forçados ocorridos em várias partes do país como Luanda e Lubango. Por outro lado, também em nome do crescimento económico e da requalificação urbana, outras milhares de famílias vêem-se ameaçadas em ter a mesma sorte.”

Infelizmente, o prognóstico concretizou-se, tendo o governo da província da Huila (província que Sua Ex.ª Sr. Presidente visitou), entre o final do mês de Julho e princípio do mês de Agosto, desalojado à força mais de 1300 famílias no município da Matala. Outras 42 pessoas, das quais 17 são crianças, permanecem desabrigadas no município da Maianga (Luanda) devido a demolições efectuadas pelo governo desta província a 3 de Agosto de 2010. (vide documentos em anexo)

Entretanto, de 29 a 31 de Julho de 2010, realizou-se em Benguela a conferência contra as demolições e desalojamentos forçados, denominada “NÃO PARTAM A MINHA CASA” que juntou cerca de uma centena de delegados de 5 províncias e onde exigiram o fim imediato das demolições forçadas em Angola. (conclusões e estratégias aprovadas em anexo)

Mais uma vez, solicitamos ao Exmo. Sr. Presidente que interceda junto do Executivo angolano, no sentido de fazer valer o bom senso e que ponha fim às demolições e desalojamentos forçados enquanto não se aprova uma legislação que regulamente tais actos. Por outro lado, que aborde com o Executivo angolano a necessidade de criação de condições dignas para a população já afectada, incluindo as justas indemnizações e avance com os processos de queixa apresentados junto do sistema judiciário aquando de tais acções.

Na mesma carta, a OMUNGA lembrava ainda que “durante o referido processo de Revisão do Conselho de Direitos Humanos, Angola aceitou a 10 de Junho de 2010 (Dia de Portugal), a recomendação 104, feita pela Noruega, de “manter um diálogo aberto com os defensores dos direitos humanos, em particular em Cabinda, onde, na sequência do recente e deplorável ataque contra a equipa de futebol togolesa, os defensores dos direitos humanos parecem ter sido detidos sem evidência de sua cumplicidade.” Infelizmente, mais uma vez o Estado angolano desrespeitou o seu compromisso perante o Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas e condenou os defensores de direitos humanos réus do processo.

Mais uma vez, solicitamos ao Exmo. Sr. Presidente que interceda junto do Executivo angolano para que este garanta o respeito pelos seus compromissos perante as instituições internacionais de Direitos Humanos.

Certos de que as nossas preocupações terão a vossa devida atenção e sem mais outro assunto, Exmo. Sr. Presidente, aceite as nossas cordiais saudações.

José A. M. Patrocínio
Coordenador Geral

06/08/2010

Análise da OPSA- Observatório Político e Social de Angola Sobre OGE 2010

OPSA- Observatório Político e Social de Angola
ADRA – Acção para o Desenvolvimento Rural e Ambiente

Análise da proposta de OGE 2010
Luanda, Agosto de 2010

Introdução
O Orçamento Geral do Estado (OGE) é o principal instrumento da administração do Estado no domínio da gestão dos recursos públicos. Este instrumento é uma importante base para o Estado prover bens e serviços públicos, melhorar e redistribuir o rendimento, estabilizar a economia e garantir o crescimento económico. Daí a importância em que a sociedade participe activamente na sua elaboração e controlo. É com base neste pressuposto e numa altura em que o orçamento se encontra em revisão e tem lugar um processo de consulta o OPSA e a ADRA elaboraram o presente Relatório de Análise da Proposta de OGE para 2010, que vêm partilhar com os parlamentares das várias bancadas e com a sociedade em geral.

Este relatório analisa o OGE em duas dimensões consideradas fundamentais:
• O processo de elaboração do orçamento que compreende as actividades entre a elaboração e a aprovação do Orçamento (capítulo 1). A coerência interna da política orçamental seguida pelo Governo de Angola nos últimos anos, e a coerência entre as políticas sociais e económicas publicamente expressas e as reveladas no orçamento são matéria importante nesta análise (capítulo 5).

• A execução e controlo do orçamento (capitulo 3). Ligado à execução do orçamento, serão analisados os efeitos sobre as assimetrias regionais, sectoriais e de rendimento (efeitos estruturais), bem como a vulnerabilidade do orçamento a crises externas (capítulos 4 e 5).

1. O Processo de Elaboração do OGE
O objectivo desta secção é apresentar e discutir as fases iniciais do ciclo orçamental previstos na Lei Quadro do OGE (LQOGE).

Esta lei serve de base à aprovação anual do OGE e autoriza a cobrança dos impostos, e a contracção de empréstimos para cobrir as despesas planificadas.
O processo de elaboração do OGE tem início no mês de Julho de cada ano e segue o processo apresentado na caixa abaixo. Tem sido recorrente ao longo dos anos, e também em 2009, o não cumprimento dos prazos legislação. O orçamento para 2010 foi aprovado em Dezembro de 2009. A sua revisão tem lugar em Agosto de 2010. Porque o OPSA não teve acesso atempado à versão revista algumas das considerações devem ser encaradas na óptica da versão aprovada em Dezembro de 2009.

A participação da sociedade civil no processo de elaboração do OGE
As organizações da sociedade civil (OSC) pouco têm participado na preparação do OGE. Perde-se assim a oportunidade de aproximar a política orçamental às reais necessidades das populações dado as OSC (em especial, as organizações comunitárias) estão mais próximas das populações, conhecem bem as suas necessidades e meios de satisfazê-las.

Uma das razões desta ausência prende-se com o facto dos primeiros dados sobre o OGE serem tornados públicos somente aquando da entrega do orçamento à AN. Esses dados são também agregados de uma forma que não facilita a análise pelas diversas instituições interessadas, incluindo as universidades.

Segundo o relatório da CEAST (2006) sobre o OGE, a par do OPSA, só a Associação Industrial de Angola tem tido uma participação activa no debate do OGE.
O acompanhamento pela imprensa também tem sido débil. Uma análise presente no relatório do Christian Michelsen Institute (CMI) sobre o processo de orçamentação e transparência em Angola, com dados referentes a 2002-2006, mostra que o acompanhamento pela imprensa tem registado melhorias.

Reflectirá o OGE as necessidades dos angolanos?
Quais são as necessidades da população angolana? Não existem estudos de campo sobre a hierarquia de necessidades dos angolanos. Todas as intervenções sobre as necessidades imediatas e mediatas dos angolanos baseiam-se na experiência de indivíduos e/ou grupos de indivíduos.

Não é errado aceitar que, na maior parte dos casos, estas opiniões estão muito perto da realidade, no entanto, deve também ser aceite que a experiência individual é significativamente limitada pela quantidade de informação possível de aceder a partir de um dado lugar ou contexto social. Aceitar esta realidade é determinante para não deixarmos grupos com necessidades particulares de fora das análises das necessidades.
A busca de um critério objectivo de identificação das necessidades económico-sociais dos angolanos levou-nos a questionar sobre as formas disponíveis de expressar estas necessidades.
Em sociedades democráticas as necessidades e prioridades da sociedade são expressas nos actos eleitorais, através da escolha de um entre vários programas eleitorais. Embora faltem estudos entre nós sobre o que motiva os eleitores, parece que o voto em símbolos e numa base identitária parece ser o mais importante.

O crescimento económico é considerado como dependente da quantidade de capital físico e humano acumulado. Daí a recomendação em que se maximizem as despesas com o desenvolvimento daquele capital minimizando-se as despesas correntes.
Como a manutenção do emprego na função pública depende das despesas correntes, isto pode gerar resistência a maximizar despesas de capital e minimizar das despesas correntes. Em 2009, perante a necessidade de cortar as despesas públicas, o Governo optou pela diminuição relativa das despesas em formação bruta de capital fixo a fim de garantir a manutenção dos salários da função pública. Como consequência desta opção, com a revisão do OGE, o peso das despesas em formação bruta de capital fixo caiu de 35,5% para 31,4% das despesas totais do OGE enquanto os gastos com o pessoal (que inclui as despesas e as contribuições para a Segurança Social) aumentou de 14,5% para 26,7% do total das despesas.

Visto que a revisão do OGE resultou na imposição de limites nas disponibilidades das finanças públicas, é possível compreender a preferência pela manutenção dos gastos com o pessoal.
Esta situação torna-se um problema quando vemos que o orçamento para 2010, claramente mais dotado que o de 2009, diminui o peso das despesas em FBCF para 23,8% das despesas totais contra um aumento dos gastos com pessoal que passa a representar 27,7% dos gastos.
Esta redução da importância dos investimentos em infra-estrutura poderá causar atrasos no processo de estruturação do país, diminuir o potencial de crescimento económico e a taxa de emprego estrutural.

Segundo análises do Centro de Estudos e Investigação Científica, da Universidade Católica de Angola, o cenário mais optimista sobre o comportamento da pobreza mostra que a taxa de pobreza de Angola está acima dos 55%. Ou seja, mais de 9,7 milhões de angolanas vivem abaixo da linha de pobreza. O índice de Gini calculado em 2005 para Angola foi dos mais altos do mundo atingindo 0,62. Neste contexto, as políticas de redistribuição do rendimento são de grande relevância.

Entre os principais instrumentos do OGE que permitem redistribuir a riqueza destacam-se a política fiscal e a política de transferências.

Segundo o relatório citado, desde 2002 verificou-se um aumento de 6,2 vezes da fiscalidade não-petrolífera o que pode ter contribuído para a deterioração do poder de compra da classe média, de forma directa, e da classe mais pobre, por via dos impostos sobre as importações.
A política de redistribuição do rendimento com base nas despesas continua débil. A quantidade de velhos abrangidos pelas pensões é inferior a 2,6% da população idosa do país. O subsídio ao preço dos combustíveis continua elevado. E este subsídio, ao ser função da quantidade consumida, beneficia mais as famílias que possuem meios como automóveis, geradores, etc.

2. A Execução e o Controlo do Orçamento
Tão importante quanto proceder à análise da distribuição do orçamento é a análise da qualidade e da capacidade de execução do OGE verificados nos exercícios anteriores.

Em Angola, a capacidade de execução das despesas tem-se mostrado reduzida tanto em resultado dos constrangimentos na disponibilização de algumas verbas como da baixa capacidade de execução de muitas das unidades orçamentadas.

A execução das receitas, tem sido recorrentemente condicionada pela fraca capacidade do Ministério das Finanças em prever os impostos pois estes dependem em grande medida do preço do petróleo, que tem apresentado grande volatilidade nos mercados internacionais.

Neste capítulo vamos proceder à análise do nível de execução do orçamento das receitas e das despesas usando indicadores referentes aos exercícios económicos de 2008 e 2007 publicados no Balanço da Execução do Programa geral do Governo 2007/2008.

Nível de execução do OGE
O Balanço Geral de Execução Orçamental de 2008 apresenta um montante geral de receitas cobradas de 3.217,4 mil milhões de kwanzas e de despesas realizadas de 2 653,8 mil milhões de kwanzas. Para o mesmo ano estavam programados 1.891,3 e 2.245,2 mil milhões de kwanzas de receitas e despesas, respectivamente.

Este aumento desproporcionado das receitas comparativamente às despesas, resultou do aumento significativo e imprevisto das receitas petrolíferas devido a um preço médio fiscal de exportação de petróleo de 93,9 US$/barril quando se tinha previsto inicialmente um preço de 55 US$/barril.
Nos últimos anos, verificou-se um pior desempenho na execução das despesas de investimento previstas com o Programa de Investimento Público (PIP).

Em 2007 a taxa de execução foi igual a 55,8%. Em 2008 este indicador aumentou para 88,3%. Estes valores representam uma grande melhoria se tivermos em conta que em 2006 a taxa de execução do PIP foi igual a 16,6%.

Segundo o Balanço de Execução do Programa Geral do Governo 2008, a baixa taxa de execução do PIP deve-se a baixa capacidade programática e de execução das unidades orçamentais. Ter sido um ano de eleições poderá ter contribuído para isso.

Como está a evoluir a transparência na execução e balanço do OGE?
A falta de transparência na execução do orçamento é favorecida pela existência de fundos sem um fim claro e também pela fraca clarificação do órgão que o gere.

Por exemplo, para o exercício económico de 2010 o OGE prevê uma Reserva Orçamental de 26,4 mil milhões de kwanzas (cerca de 342 milhões de dólares). Na opinião de muitos, esta avultada reserva terá sido constituída para cobrir despesas com um eventual processo eleitoral.

No Resumo das Despesas do Órgão por Programa, 33,9% das despesas aparecem afectas a um órgão abstracto “denominado” Encargos Centrais do Estado. Os restantes 72,1% são afectos aos restantes órgãos “conhecidos” do Estado, incluindo a Secretaria-Geral da Presidência da República que levará a cabo dois programas, sendo um deles, a Expo 2010 em Shangai-China.

A existência de diversas instituições a realizar actividades ligadas à reconstrução nacional impõe problemas de coordenação que favorecem a má gestão dos recursos públicos e a consequente falta de transparência. O caso mais flagrante é o do Gabinete de Reconstrução Nacional que leva a cabo programas que, por princípio, deveriam ser da responsabilidade dos sectores da Energia, Águas, Construção, Habitação e Transportes.

Refira-se também que constitui grande curiosidade o facto de, mesmo com as baixas taxas de execução orçamental, não haver registo de despesas cabimentadas e não pagas até ao encerramento do exercício financeiro. Acontece que a LQOGE prevê que essas despesas devem ser inscritas na proposta orçamental do ano seguinte sob a rubrica Restos a Pagar.

A não elaboração da Conta Geral do Estado tem prejudicado significativamente a melhoria da transparência na gestão do OGE. Segundo a LQOGE, as contas do Estado, instrumento básico para o controlo orçamental, deve conter o Demonstrativo das Receitas Previstas e da Despesa Autorizada, do Balanço Financeiro, do Balanço Patrimonial e a Demonstração das variações Patrimoniais.

É, neste sentido, satisfatório saber que o Executivo deu passos e está a preparar outros relativos às Contas Gerais do Estados no quadro geral de alterações relativas à execução do OGE.

Mecanismos de controlo da execução do OGE
De acordo com a LQOGE, existem dois níveis de controlo da execução orçamental. A nível interno, o controlo é exercido por órgãos especializados do Estado e institucionalizado pelo Ministério das Finanças através de decreto do Conselho de Ministros. A nível externo a fiscalização é exercida pela Assembleia Nacional com o apoio do Tribunal de Contas que emite parecer sobre as Contas do Estado.

Para que este controlo seja eficaz, o Governo deve submeter à AN uma série de documentos, dentre os quais, balancetes trimestrais de execução orçamental (até 45 dias após o termo do trimestre), o Balanço geral relativo aos resultados do exercício económico (até 30 de Abril do ano seguinte) e a Conta geral do Estado (até 31 de Dezembro do ano seguintes). Nos mesmos prazos, são submetidos, directamente, os relatórios de contas dos órgãos de soberania.

De entre as competências dos órgãos responsáveis pelo controlo interno, consta o apoio aos órgãos de controlo externo, dando-lhes conhecimento de qualquer irregularidade ou ilegalidade apurada, sob pena de responsabilidade solidária com o infractor. Em alguns países, a exemplo do Brasil, é previsto por lei um terceiro nível de controlo da execução orçamental: o Controlo Privado ou Popular. Este nível de controlo permite a qualquer cidadão denunciar irregularidades e ilegalidades na execução do orçamento perante o Tribunal de Contas.

Na prática, diversos problemas vividos pela AN têm comprometido estas atribuições. Entre os principais problemas vividos pela AN citamos os seguintes:

o Pouca autonomia relativamente à Presidência, ao Executivo e ao partido no poder;
o Fraca capacidade institucional;
o Fraca autonomia financeira;
o Pouco apoio administrativo;
o Fraca capacidade de pesquisa;
o Limitações nas condições de trabalho (nomeadamente nas instalações).


Quanto às responsabilidades do Tribunal de Contas, colocam-se, actualmente restrições na medida em que o seu principal instrumento de fiscalização, as Contas Gerais do Estado, não é ainda produzido com regularidade. Por outro lado, levantam-se questões práticas como o grau de celeridade dos processos de fiscalização bem como o grau de independência dos juízes na medida em que são nomeados por um órgão, cujos serviços de apoio, constituem uma unidade orçamental.

No quadro do presente OGE, caberá ao Tribunal de Contas questionar, de entre outras coisas, porque o Tribunal Provincial do Zaire receberá apenas 6,8 milhões de kwanzas quando a média do orçamento dos tribunais provinciais das restantes províncias é igual a 238,8 milhões de dólares (ver Proposta de Orçamento dos Órgãos Centrais para 2010).



3. O OGE e as Assimetrias
Neste capítulo analisa-se a relação entre a estrutura do OGE e a evolução das assimetrias. Analisam-se em seguida três tipos de assimetrias: as assimetrias regionais, as assimetrias sectoriais e as assimetrias entre grupos sociais.
No primeiro caso será analisada a distribuição da população e da produção pelo país.

No segundo, a importância do investimento no capital humano, onde o principal indicador será a importância das despesas sociais no OGE. Do ponto de vista produtivo analisa-se a importância do sector agrícola em comparação com o petrolífero. Por último, na análise das assimetrias de rendimento estudaremos as políticas de redistribuição de rendimento subjacentes ao OGE.

Indicadores de assimetrias regionais
As assimetrias regionais agudas têm consequências económicas sérias na medida em que causam dificuldades na planificação económica, criam ciclos migratórios, congestionam os centros mais populosos tornando-os inapropriados para a saúde física e psíquica dos seus habitantes.

Nesta secção vamos analisar as assimetrias regiões através de dois critérios: a distribuição populacional e a distribuição da actividade económica, onde os indicadores serão, respectivamente, o número de eleitores registados nas duas eleições realizadas no país e o número de empresas registadas no REMPE de 2002.

Os dados sobre os eleitores registados nas eleições de 2008 mostram que cerca de um terço da população angolana reside na mais pequena das províncias do país, Luanda, que possui 2.418 Km2. As cinco províncias mais populosas albergam 63% da população.

Para a dimensionar a produção, uma boa aproximação da distribuição provincial da produção não petrolífera pode ser dada pelo Recenseamento de Empresas e Estabelecimentos elaborado e anualmente actualizado pelo Instituto Nacional de Estatísticas. A primeira edição deste estudo mostrou que, em 2002, 55% das empresas activas localizavam-se na província de Luanda. Se juntarmos a esta as províncias de Benguela, Cabinda, Huíla e Kwanza-Sul concentramos 78% das empresas do país.

O REMPE mostra ainda que a concentração em termos de emprego é maior. Enquanto a província de Luanda concentra 73% dos empregados das unidades empresariais estudadas, as cinco províncias referidas atrás empregam 89,6%. A elevada concentração do emprego em Luanda deve-se ao facto de aí estarem 54,6% das empresas do sector “Comércio, Reparação de Veículos” que, por sua vez, empregou 29% da mão-de-obra.

Fundamentos das assimetrias regionais
Ao procurarmos perceber porque a actividade comercial e, por consequência, o emprego, está concentrado em Luanda, encontramos a dimensão do mercado (a população) como séria candidata. No entanto, uma análise mais profunda procurará saber o que está na origem da elevadíssima concentração populacional em Luanda.

Esta secção procura fazer uma exploração das potenciais causas da elevada concentração populacional em Luanda a fim de permitir a compreensão da raiz das assimetrias. A análise dos dados relativos ao registo eleitoral de 2007 mostra que a concentração populacional em Luanda era significativamente menor.

A análise da história recente de Angola mostra-nos que a guerra urbana que ocorreu depois de 1992 está na base de extensos movimentos migratórios e de alterações significativas na distribuição populacional pelas diversas províncias, com particular relevância para o aumento da percentagem da população a residir em Luanda.

O gráfico abaixo mostra que, a par de Luanda, as três províncias que registaram aumento no peso da sua população (Cabinda, Lunda-Norte e Zaire) caracterizam-se por possuir uma intensa actividade de extracção de minerais (petróleo e diamantes) e por manterem uma intensa actividade comercial com a República Democrática do Congo.

Assim, podemos considerar a dotação de recursos naturais como um primeiro candidato para explicar as assimetrias populacionais. Porém, dado que a estabilidade política militar é um facto, fica por explicar o agravamento na assimetria populacional verificado nos últimos anos.

As teorias de migração, demonstram que, dentre os factores determinantes na decisão de migrar, os motivos económicos têm grande relevância. Entre os motivos económicos, a probabilidade de conseguir emprego está entre os que têm maior peso na decisão de migrar.

Por sua vez, este está positivamente correlacionado com a dinâmica da actividade económica. Assim sendo, só uma maior dinâmica na actividade económica justifica a crescente concentração da população em Luanda. Para compreender a raiz da assimetria populacional em Angola é necessário entender o que mantém alta a dinâmica económica de Luanda.

Verificamos que, do total da despesa afecta aos governos provinciais, o Governo de Luanda recebeu, em média, 22% das despesas. Quando juntamos a esta, as províncias de Benguela, Huambo, Uíge e Cabinda, vemos que no conjunto estes governos provinciais receberam 57% das despesas públicas. Estes dados mostram que os governos das províncias que concentram uma maior população e actividade económica, receberam uma maior dotação orçamental facto que pode indiciar que o OGE tem sido um acelerador das assimetrias.

Porém, é bem verdade que antes do OGE ser um instrumento causador ou de combate às assimetrias, a estrutura deste é também uma consequência das próprias assimetrias. A distribuição de partida da população e da actividade económica condiciona a própria distribuição do OGE. As províncias com mais população, obviamente, receberão uma maior dotação do orçamento.

A análise do gráfico abaixo leva a concluir que os governos das províncias que concentram uma maior população não são, necessariamente os que recebem uma maior dotação orçamental. Em particular, a província de Luanda apresenta uma quociente de localização inferior a um tanto em 2009 como na proposta orçamental de 2010.

Realce-se também o facto do Governo provincial de Cabinda ter recebido a maior dotação por pessoa tanto no orçamento de 2009 Revisto quanto na proposta orçamental para 2010. A análise feita ignora no entanto o facto de que as despesas com o Governo Central, que representaram nas últimas quatro propostas do OGE, 87% das despesas totais, podem não ser distribuídas de forma uniforme (em termos per capita) por todas as províncias do país e podem por isso ter um impacto sobre as assimetrias. Com base numa distribuição da despesa do governo central estimada a partir do Orçamento dos Órgão Centrais de 2009 (Revisto), afectou-se, para efeitos de análise, a despesa do Governo Central às 18 províncias do país para explorar a relação entre o OGE e as assimetrias. Constatamos assim que o coeficiente de localização do orçamento afecto à província de Luanda foi igual a 22 nas duas últimas propostas de orçamento, ou seja, em termos per capita, o orçamento dos órgãos do Estado localizados em Luanda foi 22 vezes superior à média do país.

Podemos com isto concluir que o Orçamento Geral do Estado de Angola tem sido o principal motor das assimetrias regionais verificadas em Angola tanto a nível da produção como a nível da distribuição populacional. A elevada concentração da população em Luanda e o aumento no peso da população de Cabinda entre as duas eleições é estimulada pela elevadíssima parcela do orçamento que é, sistematicamente, dirigido a estas províncias.

Indicadores de assimetrias sectoriais
O problema das assimetrias sectoriais pode ser visto em duas perspectivas:
Da produção: onde o caso mais relevante é o pouco peso no PIB dos sectores com mais potencial para criar emprego;

Da despesa: onde o caso mais relevante é o reduzido peso das despesas nos sectores sociais quando comparamos com a experiência de desenvolvimento de outros países.

Segundo dados do Plano Nacional 2010, o sector petrolífero foi responsável por 54,1% do PIB de Angola entre 2000 e 2008, seguido dos sectores da Banca, Seguros e Telecomunicações que representaram, conjuntamente, 15,2% do PIB. O sector da Agricultura e Pescas representou 8,3% do PIB no mesmo período. De acordo com dados do Ministério dos Petróleos e da FAO, em 2004, o sector agrícola empregou 71% da força de trabalho o que resultou numa produção per capita de 88 dólares. O sector petrolífero empregou apenas 0,39% da força de trabalho, pelo que perfez uma produção per capita de 516 mil dólares durante o ano.


Devido insuficiência das políticas e mecanismos de redistribuição, esta diferença significativa no nível de produção reproduziu-se nos rendimentos e constitui hoje um dos principais problemas económicos do país.

A percentagem do OGE destinada a educação mantém-se em torno dos 8% das despesas totais. Enquanto isso, as despesas com a saúde registaram uma redução de 3,3 pontos percentuais desde o primeiro orçamento de 2009 até a actual proposta orçamental para 2010. Por outro lado, e apesar da estabilidade militar do país, a despesa com a Defesa aumentou de 7,15% para 11,28% da despesa total.

Raízes das assimetrias sectoriais
A concentração da produção de um país em poucos sectores coloca problemas ao nível do processo de crescimento, visto que este passa a ser condicionado pelo ciclo de negócios daqueles sectores (motores) da economia. Ficam também vulneráveis a eventuais choques.

No caso concreto de Angola, a gritante assimetria existente entre o sector petrolífero e o não petrolífero leva a um sério problema económico e social, o desemprego. Segundo a opinião de vários especialistas, o aumento da taxa de emprego em Angola bem como a melhoria na distribuição do rendimento está dependente do aumento da dinâmica do sector não petrolífero. Nos últimos anos, em resultado de uma boa condição financeira, foram feitos significativos investimentos no sector não petrolífero angolano, em particular, na melhoria da infra-estrutura.

O pouco investimento verificado em capital humano deveu-se à falta de uma estratégia nesse domínio. Daí a necessidade de se responder de forma acelerada ao crescimento do capital fixo. Como resultado, verifica-se a banalização da formação diante da necessidade de responder à demanda de quadros.

O papel dos sectores sociais e do sector primário no crescimento económico
O capital humano é um recurso determinante para o desenvolvimento de qualquer sociedade. Vários modelos de crescimento e desenvolvimento económico mostram que, no longo prazo, o crescimento do capital humano é mais importante do que a acumulação de capital físico.

Os modelos mais modernos de crescimento económico demonstram que as potencialidades de crescimento podem ser ilimitadas quando o mesmo se baseia nas ideias, pois estas podem ser combinadas de infinitas formas.

O conceito de capital humano diz respeito a pessoas suficientemente nutridas e profissionalmente qualificadas. Isto é, vai muito além da mera qualificação académica ou profissional. A melhoria nos índices de desenvolvimento humano não se coaduna com as reduções que se vêm verificando no peso da saúde no OGE. Por outro lado, é fundamental melhorar a qualidade dos indicadores sociais. Por exemplo, a avaliação dos serviços de educação e de saúde não deve ser feita apenas com base no número de matriculados ou de pacientes atendidos, mas também na qualidade dos serviços que são oferecidos pelas instituições.

Indicadores de assimetrias de rendimento
Comecemos por referir que o rendimento per capita de Angola, em 2008, foi de 93 mil kwanzas mas que o real significado deste número está estreitamente relacionado com o grau de distribuição do rendimento.

Raízes das assimetrias no rendimento
O conceito de assimetria de rendimento pressupõe a existência de um estado óptimo de distribuição do rendimento? Na prática, existe este estado? A resposta a esta questão envolve considerações filosóficas e juízos de valor (A. Rocha, Finanças Públicas).

Para a presente análise consideremos como distribuição óptima do rendimento aquela que objectiva o alcance de determinados níveis de equidade impondo, ao mesmo tempo, limites à pobreza.

As assimetrias de rendimento surgem, normalmente, de uma combinação de dotação assimétrica de factores e uma política ineficiente de redistribuição de rendimentos (alguns males sociais tais como a corrupção, o tráfico de influências ou a falta de transparência podem contribuir para o agravamento das assimetrias).

Em Angola, as assimetrias de rendimento são alimentadas, sobretudo, pelos desequilíbrios sectoriais. Por um lado temos o sector petrolífero, intensivo em capital, responsável por 40% do PIB e que emprega apenas 0,39% da força de trabalho. Do outro lado, temos o sector agrícola que, empregando 71% da força de trabalho é responsável por apenas 11,7% do PIB. O OGE pode ser usado como instrumento no combate às assimetrias de rendimento. Por um lado, a estrutura fiscal pode alterar a distribuição primária do rendimento através do imposto de rendimento progressivo (cujas receitas podem depois ser usadas em programas sociais) ou de uma maior taxação dos bens consumidos pelas famílias de mais elevado rendimento. Por outro lado, a estrutura das despesas pode afectar a reafectação dos bens e serviços de utilidade pública.

Alguns dos instrumentos de redistribuição de rendimento plasmados no Orçamento são os subsídios e transferências. Lamentavelmente, estes instrumentos têm sido ineficazes no seu objectivo na medida em que a sua principal rubrica, os Subsídios a Preços, constitui em grande medida uma forma de distribuição de riqueza para as famílias relativamente mais ricas.

A principal forma de subsídios aos preços no país consiste nos subsídios a sete dos derivados de petróleo. Dado que estes derivados são maioritariamente consumidos por famílias que possuem as tecnologias que os consomem (o carro, no caso da gasolina e do gasóleo), os subsídios acabam por beneficiar estas famílias. As famílias mais pobres, ao fazerem menor uso de meios mecânicos beneficiam menos destes subsídios. Este problema ganha maior relevância quando analisamos o comportamento desta categoria de subsídios nos últimos exercícios económicos.

Adicionalmente, no caso do sector eléctrico das águas, o sistema de subsídios contribui para a ineficiência operacional na medida em que priva as empresas operadoras de cobrir os custos totais e de realizar uma margem de lucro que permita a sua expansão e garantir serviços com um mínimo de qualidade.

4. A Crise Económico-Financeira e o seu Impacto no OGE
Uma das vias através da qual a crise afectou o OGE foi o aumento das despesas com a amortização da dívida interna titulada que ascendeu aos 812,0 mil milhões de kwanzas quando tinha sido fixada, no orçamento inicial, em 33,7 mil milhões de kwanzas. Projecta-se que as amortizações da dívida interna representem 22% das despesas orçamentais de 2009. Programa-se para 2010 despesas com amortizações da dívida interna correspondente a 10,6% da despesa total. Este aumento significativo no resgate da dívida interna resultou da queda da confiança dos investidores relativamente a condição financeira do Estado.

Outros factores, de certa forma ligados à baixa produtividade do factor trabalho, são o deficiente acompanhamento da evolução dos principais mercados internacionais e a reduzida capacidade analítica e previsional das instituições do Estado de pendor económico. Dois exemplos ilustram esta situação. Em Fevereiro de 2008, era já recomendável a revisão do OGE para aquele ano, visto que este assentava em pressupostos relativos ao comportamento da economia mundial que se encontravam desajustados, deste Outubro de 2007, com o lançamento do World Economic and Financial Surveys 2007 do FMI que continha informações como:

1.A continuidade do ciclo de crescimento da economia mundial, com uma taxa e crescimento real estimada em cerca de 5,2 porcento, em 2008, não obstante a alta do preço de petróleo bruto e a crise no mercado imobiliário dos E.U.A. que ameaçou propagar-se pela economia Mundial;

2.O nível de inflação mundial controlada, prevendo-se um nível anual de 2,1 %, nas economias avançadas, e 5,0%, nas economias emergentes e em desenvolvimento;

3.O aumento dos preços do petróleo bruto no mercado internacional, em razão da limitada capacidade de produção face à demanda global que se mantém forte;

4.O forte crescimento do comércio mundial ao nível de cerca de 7,4 porcento;

5.A tendência para aumento ligeiro das taxas de juro para o Euro e o Yen, com as taxas de juro de curto prazo a atingirem, respectivamente, os níveis de 3,7 e 1,2 %;

Na altura da elaboração do Orçamento Geral do Estado para 2009 o comportamento da economia mundial apresentava sinais claros de abrandamento da procura que, com elevado grau de certeza, afectaria a procura e o preço do petróleo. As análises de várias instituições internacionais revelavam este facto e as consequências para os países exportadores desta matéria-prima. Contrariamente a estas previsões, o Relatório de Fundamentação do Orçamento Geral do Estado apontava uma taxa de crescimento de 11,8% para 2009.

O impacto da crise sobre o a Desconcentração e Descentralização Administrativa
O processo de desconcentração financeira iniciou em 2007 com a selecção de 68 municípios que passaram a ser unidades orçamentais. Nestes previa-se a implementação de programas nas áreas da saúde, educação, saneamento básico e energia e águas.

Segundo o Balanço de Execução 2008, esses programas deveriam ser, por princípio, complementares aos programas provinciais e sectoriais. Segundo o mesmo relatório, em 2008, através do Fundo de Gestão Municipal, cada um dos 68 municípios teve acesso a 375 milhões de kwanzas. No total dos municípios foram identificados 1.320 projectos, dos quais, 875 tiveram início, 364 tiveram conclusão no mesmo ano e 26 paralisaram por motivos não reportados.

A crise económica e financeira que chegou a Angola na segunda metade de 2008 afectou negativamente o processo de descentralização financeira iniciada no mesmo ano. O OGE inicial para 2009 previa um orçamento para os governos municipais suficiente para afectar 5 milhões de dólares a 163 municípios (99% dos 164 municípios do país). Devido ao efeito da crise, este orçamento foi reduzido a meio do ano, reduzindo-se assim para 64 o número de municípios elegíveis.

Devido à melhoria das condições financeiras do país, consequência directa do aumento do preço do petróleo nos mercados internacionais que se reflecte no Fundo de Gestão Municipal, está programado para 2010 um valor suficiente para orçar 106 municípios com 5 milhões de dólares para cada.

05/08/2010

CONFERÊNCIA NACIONAL SOBRE DESALOJAMENTOS FORÇADOS "NÃO PARTAM A MINHA CASA" ESTRATÉGIA E PLANO DE ACÇÃO


CONFERÊNCIA NACIONAL SOBRE DESALOJAMENTOS
“NÃO PARTAM A MINHA CASA”

ESTRATÉGIA E PLANO DE ACÇÃO

Os participantes à Conferência Nacional sobre Desalojamentos “Não Partam a Minha Casa” reunidos em Benguela entre os dias 29 e 31 de Julho com o objectivo de conceber uma estratégia nacional e de integração em movimentos globais de prevenção e combate às demolições e desalojamentos forçados, depois de vários debates envolvendo delegados de 13 720 famílias afectadas (cerca 80 000 pessoas) de 5 províncias de Angola, organizações da sociedade civil interessadas nesta problemática, pessoas ligadas à comunicação social e parceiros internacionais, decidiram comprometer-se com a seguinte estratégia e plano de acção:

Os delegados das comunidades aqui presentes decidiram em primeiro lugar passar a informação e mensagem desta conferência à sua comunidade, na presença das autoridades tradicionais, bem como à administração municipal e outras entidades locais. Pretendem reforçar as suas comissões de moradores, mas reforçar-se igualmente umas às outras, para que nenhuma perca a vontade de lutar e consiga enfrentar as dificuldades. Acharam importante continuar a trabalhar com as Organizações da Sociedade Civil locais, especializadas no direito à habitação e na defesa dos Direitos Económicos Sociais e Culturais, chamá-las quando não encontrarem uma solução rápida para os seus problemas, e explicar aos membros da comunidade os objectivos destas organizações.

Pretendem dirigir cartas às autoridades comunais, municipais e provinciais, para exigir que implementem os seus direitos. Com o mesmo objectivo vão igualmente dirigir-se ao nível nacional, incluindo o Presidente da República e Assembleia Nacional e ao nível internacional (por ex. à Relatora Especial para o Direito à Habitação). Pretendem ainda exigir das administrações municipais a inclusão de membros de comissões de moradores nas equipas técnicas do programa de construição, habitação e urbanização.


Várias comunidades pretendem ter um advogado para defender os seus direitos. Definitivamente não pretendem fazer uso da violência. Finalmente, as comunidades de Luanda pretendem organizar uma marcha das comunidades até ao Governo da Província.

Em termos de comunicação, decidiram reforçar as relações com os jornais comunitários e outros órgãos de comunicação social para passar informação sobre a sua situação.

As pessoas ligadas à comunicação social decidiram disseminar da maneira mais ampla possível toda a informação sobre o assunto dos desalojados e das demolições. Acharam importante iniciar, aprofundar e consolidar as relações entre órgãos de comunicação social, indivíduos, comunidades e organizações, através de mobilização social, dinâmicas de grupo, visitas e encontros.

Pensam que é preciso criar capacidades e desenvolver competências a nível dos indivíduos, comunidades e organizações para “alimentar” e dar substância ao produto de comunicação social. Tem de haver trocas de experiência, partilha de informação e lições aprendidas, mas igualmente oficinas (workshops) para formação e capacitação de agentes de informação. Finalmente, as comunidades e Organizações da Sociedade Civil devem desenvolver uma estratégia de comunicação interna e externa.

Os parceiros internacionais decidiram pensar e reflectir sobre tudo o que ouviram, traduzir para Inglês o comunicado final e outros documentos importantes da conferência, para os poderem distribuir, vão fazer contactos com as insituições nacionais e internacionais, assim como os mídia e centros de pesquisa. Decidiram ainda incorporar dentro das suas estratégias as questões de terra e habitação, como um assunto que vai ter um peso crescente em Angola.

Acharam crucial reforçar a auto-representação das comunidades e organizações, e ajudar a divulgar e disseminar essa mesma auto-representação. Pretendem também facilitar o acesso à informação e à capacitação, para prevenir ou gerir conflitos de terra e habitação, através de manuais, intercâmbios, trocas de experiência programas de rádio, CDs, etc. Comprometem-se ainda a criar pontes entre as redes nacionais e internacionais. Finalmente, querem divulgar os outros lados de Angola, para além dos diamantes e petróleo, falar dos problemas, mas também da coragem e força das pessoas e da riqueza das suas diferenças culturais.

As Organizações da Sociedade Civil nacionais vão prestar contas às comunidades e outras organizações que trabalham a temática no nível local e provincial. Vão informar as autoridades em audiências específicas sobre a conferência. Decidiram criar uma rede de organizações interessadas nesta temática, Vão inventariar/levantar os casos, mapea-los, criar um banco de dados actualizado, bem como inventariar os contactos das entidades a envolver. Pretendem ainda caracterizar os casos inventariados, criar um sistema de monitoria com informação regular divulgada num website. Vão influenciar para a inclusão do tema demolições forçadas na próxima conferência Nacional da Sociedade Civil.

Comprometem-se a divulgar os casos de sucesso de negociações entre comunidades e diferentes actores (Governo, Privados e outros), divulgar o direito à habitação através de desdobráveis panfletos, debates, promover formações conjuntas sobre terra, habitação e advocacia social e realizar intercâmbio a nível local, provincial, nacional e internacional.

Vão realizar uma campanha nacional e internacional imediata exigindo soluções para os problemas das comunidades que foram desalojadas e ainda se encontram a viver em situações precárias. Vão ainda advogar para a paralisação das demolições forçadas, através de uma campanha Despejo Zero, até que Angola elabore a lei sobre o assunto, cuja intenção já foi anunciada. Pretendem tambem realizar uma marcha simultanea em várias províncias do País contra os desalojamentos forçados.


As Organizações da Sociedade Civil nacionais vão finalmente facilitar a participação das comunidades afectadas no próximo Fórum Mundial Social em Dakar e outros encontros internacionais.

Luísa Rogério endereça "CARTA ABERTA AO DIRECTOR DO JORNAL DE ANGOLA


Luísa Rogério endereça
CARTA ABERTA AO DIRECTOR DO JORNAL DE ANGOLA
Escrever esta carta representa um dos actos mais inusitados da minha carreira profissional. Diante da situação, a escassez de argumentos e de vocabulário que, vez por outra, apoquenta o jornalista comum, seria um mero detalhe acomodado na expressão “ossos do ofício”. O dilema é de ordem ética, em que o exercício de um direito – o direito de resposta – me remete a uma situação, no mínimo, absurda.

Objectivando: eu, Luísa Rogério, editora de Cultura do Jornal de Angola, sirvo-me do espaço cibernético e, eventualmente, de alguma publicação impressa para responder a um artigo em que a minha pessoa foi particularmente visada. Algo normal se o artigo não tivesse sido assinado pelo Director do Jornal de Angola, a empresa onde ambos trabalhamos.


Acho estranho o facto de um jornal público, usar as suas páginas, um espaço comum, para abordar questões internas e, em princípio, supérfluas para o leitor. Omissões, discursos subjectivos e carregados de subentendidos não deviam, em nome do rigor, tão bem defendido pelo DG do Jornal de Angola, fazer parte de uma publicação sustentada por verbas públicas.

Evito comentar a questão da “lavagem da roupa suja” em praça pública, mas não foi a primeira vez que, nas entrelinhas ou explicitamente, a “Carta do Director” encobre desabafos contra os seus colaboradores. Contornando adjectivos e acusações dispensáveis, vou ater-me simplesmente aos factos.

Antes porém, uma ressalva: poderia recorrer ao Conselho Nacional da Comunicação Social para, ao abrigo da Lei de Imprensa e, no âmbito do Direito de Resposta, reivindicar a publicação da minha versão no Jornal de Angola. De igual modo, enviarei esta mensagem ao DG do Jornal de Angola na mesma altura em que o farei aos demais destinatários, já que é uma carta aberta. Não sou pessoa de agir pelas costas, para mim a transparência e frontalidade são valores incontornáveis.

É princípio geral corresponder a um determinado acto da mesma forma. Se os assuntos que inspiraram a “Carta do Director” na edição de domingo, 1 de Agosto de 2010, no Jornal de Angola, me tivessem sido colocados na instituição e de acordo com as regras de relacionamento funcional entre superior hierárquico e subordinada, teria respondido prontamente. Tendo sido abordados naquele formato, devo inferir que não se trata de uma mera questão inerente ao vínculo hierárquico entre o distinto DG do Jornal de Angola e uma editora, cujo nome não foi citado, mas que facilmente se conclui ser Luísa Rogério, a única jornalista com essa função no diário.

O problema extravasou para o nível da defesa do brio profissional e do meu bom nome, construídos durante mais de vinte anos de jornalismo, ante a apreciação subjectiva e pontual, baseada apenas num dado isolado, por agravante, ferido de morte por conter imprecisões que acredito terem decorrido de um lapso de memória do ilustre DG. Com certeza terá muitas outras preocupações enquanto gestor da empresa pública estratégica e de grande dimensão que é a “ EDIÇOES NOVEMBRO EP”, a titular do Jornal de Angola.

Apesar de o leitor e o jornalismo merecerem melhor, a atitude do DG deixou-me sem outra hipótese. Resta-me responder. Abro um extenso parêntese para sublinhar que o faço com muita tristeza. O Jornalista José Ribeiro é para mim o “Man Ribas”. Através dele, então Chefe de Departamento Informativo, ingressei no Jornal de Angola, na segunda metade dos anos oitenta.

Sem obrigação de o fazer, apostou em mim. Com paciência, corrigiu textos e fez reparos firmes. Sancionou, mas também me defendeu quando julgou necessário e justo. Ao longo dos anos, fomos cultivando uma saudável relação a nível profissional e pessoal, em que pontificavam o respeito e consideração mútuas. Para mim, nada disso mudou. Em Janeiro de 2007, José Ribeiro regressou ao Jornal de Angola como Director Geral. Saudei a nomeação e contribui para tranquilizar os apreensivos porque “apostava” na sua integridade.

Quando fez opções internas, aparentemente menos correctas, sob outras visões, defendi o mesmo princípio: a unanimidade genuína em termos absolutos é excepção. Mais importante do que isso, não acreditava que o jornalista José Ribeiro fosse do tipo de ser humano capaz de tomar decisões com o intuito deliberado de prejudicar.


Para encerrar o parêntese, reitero que José Ribeiro estava no topo dos profissionais que marcaram a minha trajectória. Já o afirmei em inúmeros ocasiões, antes dele assumir a direcção do único diário do país e não tenho porque escondê-lo. Como não sou movida por qualquer ímpeto bajulatório e tenho a pretensão de não ser cobarde, sempre fui honesta ao concordar ou discordar, quer em reuniões, quer em privado.

Entendo que um dos primeiríssimos requisitos para a nomeação de colaboradores próximos é a confiança. Quando esta é quebrada, a exoneração é a consequência natural porque um gestor tem a prerrogativa de escolher os profissionais da sua conveniência para cargos chaves, como me parece ser o de editor num jornal.


Considero nomeações e demissões normais na trajectória de um trabalhador. No Jornal de Angola já ocupei várias funções, das quais fui demitida por razões pontuais. Mas não deixei de ser jornalista. Essa não é apenas a profissão que escolhi, ainda adolescente. É a minha opção de vida, é a minha causa numa época em que elas se diluíram algures, entre a utopia e a “ressaca” da luta pela sobrevivência.

A esta altura não espero que alguma mente ardilosa tipifique o crime de reunião no local de trabalho dentro do respeito pelas leis e normas laborais. Reivindicar uma postura dialogante com quem lidera uma equipa de profissionais também não é crime. Nem sequer pecado. Como ser humano e como profissional tenho Direitos consagrados numa Constituição que o Jornal de Angola amplamente defendeu e divulgou.

Recuso-me a aceitar, silenciosamente, que me sejam imputadas responsabilidades sobre factos mal contados, com ou sem a intenção de manipular. Com a devida vénia aos meus colegas Editores e sub-Editores, confirmo ter subscrito uma carta endereçada à Excelentíssima Senhora Ministra da Comunicação Social. Escuso-me a mencionar aqui uma linha que seja do seu conteúdo por respeito às pessoas, às instituições e ao procedimento correcto.

Se o DG do Jornal de Angola tivesse solicitado esclarecimentos, acredito que teria tido outras referências. José Ribeiro tem feito a apologia do bom jornalismo, do rigor e da ética. Só que parece ter-se esquecido de uma regra fundamental: apurar a informação, cruzar as fontes e (porque não?) desconfiar delas. Não me refiro a matérias publicados por jornalistas, independentemente de conterem ou não informações precisas.

Assumir os meus actos faz parte da minha conduta. Sou um ser humano com erros e acertos, longe de mim aspirar ao estatuto de infalível. Ademais, duvido que viva tempo suficiente para algum dia alcançar o grau de excelência que reduz a zero a margem de erro em jornalismo.

Confesso que fiquei perplexa quando li a “Carta do Director”. Por instantes, a confusão mental apossou-se de mim. Existem registos de som, fotografias, testemunhas e outros detalhes facilmente comprováveis. A entrevista foi feita e gravada tanto por mim, quanto pela assessoria do entrevistado. Entregue no dia 19 de Julho de 2008, a sua publicação foi considerada extemporânea por razões que não evocarei.


Entendo que num jornal diário as opções de edição são dinâmicas. A ordem de prioridade varia, às vezes, até numa mesma edição, em função de circunstâncias e, sobretudo, do interesse público que dita as prioridades.

Consciente de ter feito a entrevista no quadro de um contrato de trabalho que me vincula ao Jornal de Angola não me ocorreu a possibilidade de publica-la noutro espaço.

A entrevista era do Jornal de Angola, onde há uma cadeia de comando. Mesmo sendo editora de Cultura não tenho autonomia para ousar publicar uma matéria na Editoria de Política. Porque razão um jornalista em pleno gozo das suas faculdades mentais guardaria uma entrevista por si feita e editada para sob o risco de receber, dois anos volvidos, um atestado público de incompetência?

Se a credibilidade do Jornal de Angola algum dia esteve em causa, seguramente não foi por causa da citada entrevista que, como destaquei atrás, era do Jornal de Angola. Agora é exclusivamente minha!

Não tenho intenção de liderar revoluções e campanhas contra jornalistas, ainda que olvidem duas ou três constatações. Exemplos: a liberdade de expressão é já uma conquista dos angolanos; os movimentos reivindicativos regem-se por leis trabalhistas; em democracias, as minorias têm direitos, incluindo dois ou três “gatos-pingados”. Numa Redacção as pessoas divergem, há choques de carácter, percepções diferentes, falhas e mal entendidos. Mas as pessoas devem conversar, identificar problemas e buscar soluções.

O que não está correcto é impor a “lei da rolha” e rotular colegas com adjectivos susceptíveis de induzir outras interpretações. Por algo menos do que “sabotador” muita gente boa deixou precocemente este mundo. Esgrimir argumentos, sim. Tentar ganhar razão de forma acalorada, talvez. A qualquer preço, não. Até as guerras têm ética e são protegidas por convenções.

Agradeço aos amigos que me recomendaram cautela, recordando que a “corda rebenta sempre do lado mais fraco”. Mas do mesmo modo que, entre os David e Golias, nem sempre os vencedores são os mais fortes, nem tudo nesta vida se resume a batalhas campais.

Às vezes vale a pena parar e olhar ao redor. Quanto mais não seja para descobrir que entre o umbigo e o céu existe uma imensidão de gente. Dito de outro modo, ninguém é dono absoluto da razão. Em contextos como o presente, considero altamente recomendável a nossa milenar sabedoria africana traduzida em expressões como a do maliano Amadou Hampaté-Bâ que não me canso de evocar. “A verdade não é a minha verdade nem é a tua verdade, mas a que está no meio e a ninguém pertence”.
Muito obrigada.
Com respeito e consideração
Luanda, 2 de Agosto de 2010
Luísa Rogério

CONFERÊNCIA "NÃO PARTAM A MINHA CASA" Benguela 29 a 31 de Julho de 2010

CONFERÊNCIA
"NÃO PARTAM A MINHA CASA"
Benguela 29 – 31 de Julho 2010


COMUNICADO FINAL


A mesma teve como objectivo conceber uma estratégia nacional e de inteEntre os dias 29 – 31 de Julho de 210 realizou-se na província de Benguela a conferência nacional sobre desalojamentos, sob o lema “Não Partam minha Casa,” com a participação de cerca de duas centenas e meia de delegados em representação de comunidades afectadas nas províncias de Luanda, Benguela, Kwanza Sul, Huila e Lunda Sul, organizações da sociedade civil, estudantes académicos, políticos e população em geral.

gração em movimentos globais de prevenção e combate às demolições e desalojamentos forçados, tendo durante os três dias de trabalho as discussões viradas nos seguintes eixos:

1-Experriencias de redes internacionais pelo direito habitação
2- Experiencia da sociedade civil angolana, com depoimentos das comunidades e organizações envolvidas no processo.

3- Analise das experiencias identificação das lições aprendidas
4- Debates de estratégias futuras, tendo em atenção os subtemas de advocacia, comunicação de terreno.

Durante a conferência, os participantes partilharam vários testemunhos de pessoas e comunidades que viram as suas casas destruídas, sem aviso prévio e protecção legal, estando nesse momento a sobreviverem em condições difíceis. Deste modo, apela-se a uma melhor gestão urbana e implementação de planos directórios com vista a permitir que os processos de requalificação respondam as expectativas, necessidades, direitos e liberdades fundamentais dos cidadãos.

De igual modo, os participantes reconhecem que a participação e o envolvimento das comunidades na problemática das demolições e desalojamentos, o diálogo e o entendimento entre os governos a sociedade civil é imprescindível para a definição e construção dos processos de melhoria das condições de vida das populações e do crescimento e desenvolvimento das zonas habitacionais.

Reconhecendo que a habitação adequada é condição fundamental para vida humana e o exercício pleno da cidadania, os participantes a conferencia, apelam ao Estado e as instituições angolanas a respeitar, proteger e promover o direito a habitação adequada.


Por outro lado, os participantes ao evento reafirmaram a sua condenação a forma brutal como as autoridades do país levam a cabo o desalojamento de pessoas, que alegadamente ocupam zonas consideradas reservas do Estado, ao mesmo tempo que saudaram as intenções do governo em atribuir titulo de propriedade as populações da comunidade da Graça em Benguela e encorajam que os outros governos províncias sigam o mesmo exemplo.

Igualmente, os participantes tomaram nota e expressaram os seus votos de solidariedade para com o Coordenador da SOS Habitat, Luís Araújo, actualmente exilado na Europa por força das suas intervenções no combate as demolições e desalojamentos forçados em Angola.


Finalmente, os participantes recomendaram o seguinte:

1- A elaboração e implementação de uma estratégia nacional de prevenção das demolições e desalojamentos forçados, assim como a integração em movimentos globais afins.

2- A partilha de experiência e informação sobre acções de advocacia e lobby no domínio do planeamento e politicas de habitação sustentável.

3- A criação, reforço e consolidação de espaços comuns para debate e partilha de instrumentos nacionais, regionais e internacionais sobre o direito a habitação adequada como forma de desencorajar futuras acções de demolição e desalojamentos forçados por parte das autoridades angolanas.

a) Os participantes exigem das autoridades que parem imediatamente as demolições e desalojamentos forçados ate que haja legislação adequada e condições alternativas dignas de realojamentos das populações.

b) Exigem a resolução prioritária da situação das populações que foram realojadas em situações extremamente precárias.

Neste dia 31 de Julho, os participantes a conferencia felicitam todas as mulheres africanas, em geral e as angolanas, em particular e expressam a sua solidariedade a todas aquelas que vivem na situação de desalojadas e em situação vulnerável e deplorável.

Conferencia Nacional sobre Desalojamentos “Não Partam a Minha Casa”, Benguela, aos 31 de Julho de 2010.

Os participantes