29/04/2015

130 ORGANIZAÇÕES AFRICANAS SUBSCREVEM CARTA ABERTA CONTRA XENOFOBIA NA ÁFRICA DO SUL, DIRIGIDA À COMISSÃO AFRICANA


Nesta sexta-feira, 24 de Abril, foi entregue pela Southern Africa Litigation Center à Comissão Africana dos Direitos Humanos e dos Povos, que se encontra reunida na sua 56.ª Sessão ordinária, em Banjul, Gâmbia, uma carta aberta contra os ataques de xenofobia que se desencolaram na África do Sul.

A carta que foi subscrita por 130 organizações africanas, entre as quais a OMUNGA, exige a tomada imediata de medidas que impeçam a continuidade de tais ataques, como a responsabilização dos seus autores, bem como as represálias contra cidadão sul africanos em demais países.

Acompanhe aqui a versão na íntegra em português (a mesma também pode ser encontrada em http://www.southernafricalitigationcentre.org/2015/04/23/carta-aberta-a-comissao-africana-sobre-os-ataques-xenofobos-na-africa-do-sul/ ):

Centro de Litigação da África Austral

Carta Aberta à Comissão Africana sobre os ataques xenófobos na África do Sul

23 de abril de 2015

Caros presidente e comissários da Comissão Africana dos Direitos Humanos e dos Povos,

As organizações da sociedade civil abaixo-assinadas escrevem - como organizações e cidadãos preocupados, para manifestar a nossa apreensão sobre os ataques xenófobos que estão a ocorrer na República da África do Sul, sobretudo contra cidadãos de outros países africanos. Dirigimo--nos a vós, organismo responsável pela promoção e proteção dos direitos humanos no continente africano, pedindo-vos que instem o governo sul-africano a dar passos concretos para pôr fim a estes ataques, a julgar os responsáveis pelos mesmos e a proteger os cidadãos estrangeiros que vivem no território da África do Sul para que não sofram violações de direitos humanos, e tenham proteção, incluindo no que respeita ao direito à vida.

Como organizações da sociedade civil a trabalhar em direitos humanos no continente africano, estamos especialmente preocupados com a perda de vidas e com as vítimas destes ataques que ainda assim conseguiram sobreviver, bem como com o impacto sobre a dignidade dos cidadãos estrangeiros que vivem na África do Sul e os danos causados à propriedade privada, que constituem uma grave violação dos direitos consagrados na Carta Africana dos Direitos do Homem e dos Povos (Carta Africana). O direito à vida, o direito a não ser sujeito a tortura nem a tratamento cruel, desumano e degradante, e o direito a igualdade total perante a lei não são direitos derrogáveis – não dependem do estatuto que uma pessoa tenha num país. O estatuto de cidadãos estrangeiros que detêm estas vítimas de ataques na África do Sul é, por isso, irrelevante.

Assistimos a declarações feitas por vários governantes, incluindo membros do executivo sul-africano, no sentido de ser dada assistência a pessoas que estão a sair do país. Muito embora deva ser dada assistência àqueles que desejam partir, a solução para a violência não pode ser a repatriação de todos os cidadãos estrangeiros, mas antes assegurar que no país os seus direitos sejam protegidos. Além disso, os atos de quem leva a cabo ataques contra cidadãos estrangeiros não podem ser recompensados com a prestação de assistência, para que sejam atingidos os seus objetivos de fazer partir do país os cidadãos que não sul-africanos. Neste aspeto, lembramos todos os Estados do que está estabelecido no artigo 21 da Carta Africana, que proíbe expressamente as expulsões maciças de cidadãos estrangeiros, incluindo expulsões em larga escala dirigidas a grupos de determinada nacionalidade.

Estamos ainda preocupados com declarações feitas por entidades em posição de autoridade e influência, que podem configurar um incitamento à violência, e com o impacto que isso pode ter  na perpetuação da xenofobia. Apesar de algumas declarações terem sido feitas para condenar a violência, preocupa-nos que não estejam a ser dados passos concretos suficientes para prevenir novos ataques, para julgar os responsáveis por esses ataques, para proteger os cidadãos estrangeiros e para evitar o êxodo do país de cidadãos estrangeiros em larga escala e sob coação.

As organizações abaixo-assinadas pedem à Comissão Africana que inste o governo da África do Sul a:

·         Proteger os cidadãos estrangeiros de novos ataques, através nomeadamente de um aumento da presença policial nas áreas de elevado risco, e a pôr imediatamente em marcha iniciativas de resolução de conflito nessas áreas, envolvendo o Ministério dos Assuntos Internos;
·         Providenciar assistência humanitária urgente aos cidadãos estrangeiros deslocados no país, incluindo aconselhamento em situações traumáticas;
·         Levar à justiça os responsáveis pela violência contra cidadãos estrangeiros. Para facilitar estes processos, o Ministério da Justiça deverá formar tribunais especiais, tal como foi feito durante o Campeonato do Mundo de Futebol de 2010 na África do Sul, para tratar os casos de violência contra cidadãos estrangeiros, com o propósito de aliviar a carga sobre os tribunais comuns. Toda a informação relativa ao acesso a estes tribunais especiais deverá ser largamente difundida;
·         Investigar e julgar os instigadores deste potencial ciclo perpetuador da violência;
·         Condenar de forma inequívoca declarações feitas por pessoas em posições de autoridade e influência que possam constituir um incitamento à violência;
·         Envolver de forma efetiva e o mais amplamente possível a opinião pública sul-africana, com vista à contenção e à erradicação da xenofobia e da violência xenófoba. Estas mensagens devem ser repetidas, constantemente reiteradas e ouvidas não apenas após os momentos de crise. Estas mensagens devem estar acessíveis a todos, em todos os dialetos locais, e devem ser comunicadas diretamente às comunidades e envolver os líderes locais.

Em 2008, ataques xenófobos causaram a morte a 62 pessoas e centenas ficaram feridas, tendo-se gerado um fluxo de  100.000 deslocados ou mais. Na sequência desses ataques, a Comissão de Direitos Humanos da África do Sul apresentou um relatório[i] com as suas conclusões e recomendações. Pedimos-vos igualmente que recordem este documento ao governo sul-africano e que o urjam a concretizar imediatamente as recomendações que dele constam.

Além disso, pedimos-vos que instem os governos de outros países a garantirem que são dados os passos necessários para evitar represálias contra cidadãos sul-africanos nos seus territórios. As organizações internacionais devem também colaborar nos esforços de assistência humanitária dirigida aos cidadãos estrangeiros deslocados na África do Sul e àqueles que regressam aos seus países de origem na sequência dos ataques.

Submetida pelo Centro de Litigação da África Austral
Kaajal Ramjathan-Keogh,
Diretor-executivo


Assinada pelas seguintes organizações da sociedade civil, sediadas e que trabalham em assuntos de direitos humanos no continente africano:

1.       Advogados pelos Direitos Humanos (LHR - África do Sul)
2.       Associação de Advogados da Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC LA)
3.       Centro de Recursos Legais (LRC), África do Sul
4.       Fórum das ONG do Zimbabwe para os Direitos Humanos, Zimbabwe
5.        Instituto de Comunicação Social da África Austral (MISA)
6.       Centro de Assistência Legal (LAC), Namíbia
7.       Centro de Investigação e Documentação de Defensores das Mulheres (WARDC), Nigéria
8.       Assistência Legal em África (AFLA)
9.       Coligação para o Tribunal Penal Internacional (CICC)
10.   Comissão Internacional de Juristas (ICJ – Quénia)
11.   Centro dos Direitos Humanos e Reabilitação (CHRR), Malawi
12.   Centro para o Desenvolvimento dos Povos (CEDEP), Malawi
13.   Centro de Responsabilidade e Estado de Direito (CARL), Serra Leoa
14.   Fundação dos Média da África Ocidental (MFWA)
15.   Associação para a Educação das Crianças (CHESO), Tanzânia
16.   Coligação da Costa do Marfim para o Tribunal Penal Internacional (CI-CPI), Costa do Marfim
17.   Rede Equitas na Costa do Marfim (REQCI), Costa do Marfim
18.   Grupo de Trabalho para os Instrumentos Internacionais (GT2I)
19.   Iniciativa Internacional a favor dos Direitos dos Refugiados (IRRI)
20.   Fundação para as Iniciativas de Direitos Humanos (FHRI), Uganda
21.   Instituto de Estudos em Segurança (ISS)
22.   Associação “Direitos Humanos Primeiro” do Ruanda (HRFRA), Ruanda
23.   Centro Scalabrini da Cidade do Cabo, África do Sul
24.   Centro da África Austral para a Resolução Construtiva de Conflitos (SACCORD), Zâmbia
25.   Iniciativa para as Liberdades Civis (ICL), Zâmbia
26.   Consórcio para os Refugiados e Migrantes na África do Sul (CoRMSA), África do Sul
27.   Centro de Justiça e Promoção dos Direitos (ERCJ), Zâmbia
28.   Rede Queniana para os Assuntos Legais e Éticos sobre o VIH/Sida (KELIN), Quénia
29.   Rede de Saúde da Mulher da Namíbia (NWHN), Namíbia
30.   Centro de Aconselhamento, Assistência e Educação em Direitos Humanos (CHREAA), Malawi
31.   Aliança para o VIH/Sida e Direitos da África Austral (ARASA)
32.   Associação TransBantu da Zâmbia (TBZ), Zâmbia
33.   Associação do Zimbabwe para a Prevenção do Crime e Reabilitação do Ofensor (ZACRO)
34.   Mulher e Lei na África Austral (WLSA-Moçambique), Moçambique
35.   Mulher e Lei na África Austral (WLSA-Zimbabwe), Zimbabwe
36.   Centro de Proteção Legal Tshwaranang (TLAC), África do Sul
37.   Centro para Raparigas e Interação (CEGI), Malawi
38.   Associação Justiça, Paz e Democracia (AJPD), Angola
39.   Coligação Pan-africana Positiva da Mulher-Zimbabwe
40.   Coligação Pan-africana Positiva da Mulher-África Austral e Ilhas do Oceano Índico
41.   Centro de Estudos Legais Aplicados (CALS), África do Sul
42.   Fórum dos Advogados de Direitos Humanos (LFHR), Malawi
43.   Coligação para a Prevenção do Aborto Inseguro (COPUA), Malawi
44.   Escada para o Desenvolvimento Rural (LAFORD), Malawi
45.   Associação das Organizações de Direitos Humanos (AHURIO), Uganda
46.   Centro para os Direitos Sexuais (SRC), Zimbabwe
47.   Associação de Reintegração dos Jovens/Crianças na Vida Social (SCARJoV), Angola
48.   Associação, Mulher, Lei e Desenvolvimento (MULEIDE), Moçambique
49.   Grupo Matrix Support, Lesoto
50.   Iniciativa Africana para o Desenvolvimento e para a Paz (ADPI)
51.   Instituto de Serviços de Apoio Paralegal (PASI), Malawi
52.   Fundação contra a Sida da África do Sul (AFSA), África do Sul
53.   Rede do Botswana sobre a Ética, a Lei e o VIH/Sida (BONELA), Botswana
54.   Campanha para o Tratamento, Defesa e Literacia (TALC), Zâmbia
55.   Serviço de Informação sobre o VIH/Sida da África Austral (SAfAIDS)
56.   Centro de Direitos Humanos da Universidade de Pretória (CHR), África do Sul
57.   Comunidade Temba de Serviços de Desenvolvimento, África do Sul
58.   Omunga, Angola
59.   Rede de Apoio Legal no VIH/Sida (ALN), África do Sul
60.   Iniciativas das Comunidades para o Avanço Social Holístico (CHISA), Malawi
61.   Proteção das Crianças com Sida (PES), República Democrática do Congo
62.   Ndifuna Ukwazi (NU), África do Sul
63.   Rede do Malawi de Líderes Religiosos Vivendo ou Afetados pelo VIH/Sida (MANERELA+), Malawi
64.   Fundação de Recursos legais, Zâmbia
65.   ENDA Santé
66.   Instituto Panos da África Austral
67.   Projeto para a Responsabilização e Direitos Socioeconómicos (SERAP), Nigéria
68.   Grupo de Ação Mulheres do Darfur (DWAG), Sudão
69.   Centro de Documentação e Desenvolvimento dos Recursos Civis (CIRDDOC), Nigéria
70.   Iniciativa Ação Afirmativa para a Mulher (NCAA), Nigéria
71.   Coligação das NGO da África Oriental (CENGOS), Nigéria
72.   Coligação Nigeriana para o Tribunal Penal Internacional (NCICC), Nigéria
73.   Projeto de Defesa e Assistência Legal (LEDAP), Nigéria
74.   Juventude para a Criança em Cristo (YOCIC), Zimbabwe
75.   Fundo Susceptible Iyanai Chinoda OVC (SICO), Zimbabwe
76.   Centro para o Estudo da Violência e Reconciliação (CSVR), África do Sul
77.   Rede Moçambicana de Líderes Religiosos Vivendo com VIH/Sida (MONERELA+), Moçambique
78.   Associação Africana de Defesa dos Direitos Humanos (ASADHO)
79.   Iniciativa para os Direitos Sociais e Económicos (ISER), Uganda
80.   Aliança Internacional dos Recursos Naturais de África (IANRA)
81.   Desenvolvimento Internacional e Ambiente em África no Século XXI (AIDE21)
82.   FEMNET-Rede das Mulheres Africanas para o Desenvolvimento e as Comunicações
83.   Programa Ambiental das Mulheres na Nigéria (WEP-Nigéria)
84.   Movimento das Mulheres do Delta do Níger para a Paz e o Desenvolvimento (NDWPD), Nigéria
85.   Geração-Positiva, Camarões
86.   Rede das Organizações da Sociedade Civil (CSO Network-Quénia)
87.   NamRights Inc, Namíbia
88.   Coletivo Senegalês dos Africanos para a Promoção da Educação para o Ambiente (COSAPERE), Senegal
89.   Centro para a Saúde, Direitos Humanos e Desenvolvimento (CEHURD), Uganda
90.   Comité Consultivo para os Direitos Humanos (HRCC), Malawi
91.   Centro para o Empoderamento da Juventude e Educação Cívica (CYECE), Malawi
92.   Juventude e Sociedade (YAS), Malawi
93.   Rede de Redução da Pobreza (PORENET), Moçambique
94.   Grupo de Apoio Khulumani, África do Sul
95.   Homens Africanos para os Direitos e a Saúde Sexual (AMSHeR)
96.   Sociedade para o Desenvolvimento Internacional (SID)
97.   Prevenção, Informação e Luta contra a Sida (PILS), Maurícia
98.   Quenianos pela Paz com Verdade e Justiça (KPTJ), Quénia
99.   Amnistia Internacional Senegal (AI Senegal)
100.  Section 27, África do Sul
101.  Centro de Apoio às Mulheres Masimanyane, África do Sul
102.  Rede Gay & Lesbian, África do Sul
103.  Amnistia Internacional Mali (AI Mali)
104.  Equality Now, Quénia
105.  Corruption Watch, África do Sul
106.  Centro de Defesa e Apoio Paralegal dos Direitos da Criança (CRAPAC), Malawi
107.  Centro Africano de Estudos para a Justiça e para a Paz (ACJPS)
108.  Advogados do Zimbabwe para os Direitos Humanos (ZLHR), Zimbabwe
109.  Agenda Diretos dos Média (MRA), Nigéria
110.  National Right to Food, Malawi
111.  Rede do Malawi para a Justiça Económica (MEJN), Malawi
112.  Equidade na Saúde no Malawi (MHEN), Malawi
113.  Rede do Malawi de Pessoas Vivendo com VIH/Sida (MANET+), Malawi
114.  Programas Igreja e Sociedade-CCAP Sínodo de Livingstonia, Nkhoma, Blantyre, Zâmbia e Harare
115.  Plataforma Espaço Civil e Político (CSP Platform), Malawi
116.  Centro para a Governança e Participação Pública (CeGPP), Malawi
117.  Instituto para a Interação Política (IPI), Malawi
118.  Fundação Ukhondo, Malawi
119.  Alternativa de Desenvolvimento e Proteção dos Direitos das Mulheres (WRAPA), Nigéria
120.  Coligação Educação da Sociedade Civil (CSEC), Malawi
121.  Centro para os Assuntos da Juventude e das Crianças (CEYCA), Malawi
122.  Development Dynamics Nigeria, Nigéria
123.  Comissão Internacional de Juristas (ICJ-Programa África)
124.  Sindicato Pan-africano de Advogados (PALU)
125.  Rede de Direitos Humanos do Uganda (HURINET-U), Uganda
126.  Advogados da Suazilândia para os Direitos Humanos (SLHR), Suazilândia
127.  Iniciativa Open Society para a África do Sul (OSISA)
128.  Instituto de Direitos Humanos da África do Sul (HURISA), África do Sul



[i] Relatório da SAHRC: Investigation into Issues of  Rule of Law, Justice and Impunity arising out of the 2008 Public Violence against Non-Nationals, http://www.sahrc.org.za/home/21/files/Reports/Non%20Nationals%20Attacks%20Report_1-50_2008.pdf



20/04/2015

OS 13 ANOS DE PAZ EM ANGOLA E O PROCESSO AUTÁRQUICO SERÁ DEBATE EM QUINTAS DE DEBATE COM ÂNGELO KAPWATCHA

As autarquias constituem um mecanismo essencial na descentralização político-administrativa do poder. Contribuem, significativamente, para o exercício e desenvolvimento de uma democracia. Nos termos da Constituição angolana, os recursos financeiros das autarquias devem ser proporcionais às suas atribuições. O país vive, agora, 13 anos de paz. É o único que não tem autarquias, a nível da CPLP. Em 13 anos, que passos se deveriam dar rumo a esse desafio?


Que avaliação se pode fazer do país, nos dias de hoje?

NOTA DE IMPRENSA
A Associação OMUNGA realiza no próximo dia 23 de Abril do ano em curso, o seu programa habitual QUINTAS DE DEBATES. O referido programa visa proporcionar espaços de diálogo aberto, despido das cores partidárias e juntar visões diferentes sobre temas diversos ligados à política, economia e sociedade.
O programa QUINTAS DE DEBATES acontece com as atenções viradas à transparência, justiça social, boa governação e autarquias em Angola e a reforma da justiça e do Direito.

 Com o tema: OS 13 ANOS DE PAZ EM ANGOLA E O PROCESSO AUTÁRQUICO, será prelector ÂNGELO KAPWATCHA, Jurista. O debate vai acontecer no auditório do HOTEL PRAIA MORENA, em Benguela, a partir das 15 horas.


Todos estão convidados a participar no dia 23 de Abril de 2015, a partir das 15 horas.



LOBITO, 17 de Abril de 2015

09/04/2015

CIDADÃ GANHA BATALHA COM BANCO MILLENNIUM ANGOLA MAS EXIGE DO BNA RESPEITO PELOS DIREITOS DOS CLIENTES DOS BANCOS COMERCIAIS


Na realidade Maria Odete Patrocínio conseguiu a 8 de Abril, levantar os seus 300 Euros da sua conta no banco Millennium Angola. Foi ganha assim uma primeira batalha. No entanto, esta cidadã considera que este facto não deve ser entendido como um favor, mas sim como um direito seu e de todo e qualquer cidadão.

É assim que a 9 de Abril dirigiu uma carta reclamação dirigida ao Governador do Banco Nacional de Angola a solicitar a intervenção imediata do BNA de forma a repor o respeito pelos direitos dos diferentes clientes dos bancos comerciais.
Ao mesmo tempo apela para que todos aqueles que estejam a viver, tenham vivido ou venham a viver situações similares que façam recurso à cidadania e utilizem todos os mecanismos de reclamação e de denúncia.
Ao mesmo tempo agradece a onda de solidariedade que se criou em torno do seu assunto que decerto ajudou a solucionar desta vez a sua situação e ao debate que se desenrolou em torno do direito dos cidadãos poderem fazer uso do seu dinheiro em divisas sem qualquer impedimento dos bancos comerciais ou de qualquer outra instituição. Ao fim de certa de 48 horas, a sua carta de reclamações postada no facebook contava com 800 likes, 674 partilhas e cerca de 300 comentários o que demonstra bem como este assunto toca e afecta a tantos cidadãos.
Abaixo podem acompanhar a carta que dirigiu hoje ao Governador do Banco Nacional de Angola.

LOBITO, 09 de Abril de 2015


C/c: Banco MILLENNIUM - L O B I T O

Ao Exmo. Sr.
Governador do Banco Nacional de Angola (BNA)
L U A N D A

ASSUNTO: CARTA ABERTA DE RECLAMAÇÃO E SOLICITAÇÃO DE ESCLARECIMENTOS

Excelência

É com enorme preocupação que a si me dirijo para apresentar os factos que adiante descrevo e solicitar esclarecimentos e intervenção por parte do BNA

Eu chamo-me Maria Odete Ribeiro Martins Patrocínio, de 86 anos de idade, natural de Lisboa, residente em Angola, nesta cidade do Lobito desde 1957, com o Cartão de Estrangeiro Residente vitalício com o número R003335/00323602 e com a minha conta bancária em Euros no banco MILLENNIUM Angola, no Lobito. (dados da conta em anexo)

Foi com enorme insatisfação que a 1 de Abril de 2015 me foi impedido  fazer o levantamento do montante de 300 Euros (TREZENTOS EUROS) da minha conta naquela agência bancária.

De acordo às informações prestadas pelas funcionárias que atenderam, devia-se ao facto de haver poucas divisas no país e que os valores recebidos por transferência só poderiam ser levantados em moeda nacional, o Kwanza.

Foi solicitada a apresentação do documento que emite tal orientação às referidas funcionárias que apenas conseguiram balbuciar que eram ordens, mas que iriam contactar Luanda. Nesse mesmo dia deixou-se preenchido o boletim de levantamento aguardando a resposta de Luanda.

A 6 de Abril de 2015, o funcionário que atendeu, disse ter falado telefonicamente com a gerente que pedia para continuar a aguardar pela resposta de Luanda, mas também aconselhou a fazer uma carta de reclamação, que o fiz através de uma Carta Aberta de Reclamação datada de 7 de Abril de 2015.(cópia em anexo)

Ainda a 7 de Abril de 2015, depois de se ter feito a entrega da referida carta na agência bancária, permiti a sua ampla divulgação nas redes sociais que em pouco mais de 24 horas teve mais de 750 likes, de 630 partilhas e de 230 comentários.

Na manhã de 8 de Abril de 2015 recebemos um telefonema do banco a solicitar que nos dirigíssemos ao mesmo para conversarmos sobre o assunto. Questionou-se se a deslocação ao banco seria para conversar-se sobre o assunto ou para se efectuar o levantamento do montante solicitado e foi respondido que seria para as duas questões.

No banco foi-nos prestado um atendimento personalizado onde foi mais uma vez tentado explicar as razões da decisão de não permitir o levantamento em divisas nas contas que recepcionam esses valores por transferência bancária. Por tal razão voltaram a insistir que fizessemos o levantamento em moeda nacional, Kwanza, que prontamente regeitámos. Voltou-se a exigir o documento que emana tal directiva, o que não foi satisfeito comprometendo-se tão brevemente poderem disponibilizar o mesmo já que aguardariam de Luanda.

Perante a nossa insistência de que não aceitaríamos receber o valor solicitado em equivalência em Kwanzas ao câmbio do dia, do banco, foi-nos então dito que iriam permitir o levantamento dos 300 Euros. No entanto, fomos alertados que poderíamos não voltar a ter a mesma sorte em situações futuras já que tudo dependeria da disponibilidade em divisas. (comprovativo do levantamento dos 300 Euros)

Foi-nos esclarecidos que as divisas que possuem são destinadas às pessoas que têm as suas contas em divisas mas com depósitos locais e não resultantes de transferências e para outros casos especiais como por exemplo alguém que precise de viajar, etc.

Lembrámos que a referida conta bancária ´foi aberta naqueles balcões com depósito em moeda Euros e que a mesma tanto pode servir para receber depósitos directos como provenientes de transferências do exterior do país.

Por último, insistiram para que abríssemos uma conta em kwanzas e assim todas as transferências recepcionadas seriam imediatamente cambiadas em Kwanzas. Imediatamente negámos tal proposta.

Disseram-nos ainda que estavam a ver a possibilidade do Director Comercial daquele banco vir de Luanda ao Lobito para ter um encontro connosco e poder-nos então esclarecer melhor a situação. Agradecemos de imediato essa disponibilidade e ficamos a aguardar que o banco nos contacte para tal encontro.

Tomando em conta que:

·         Cabe ao Estado angolano garantir o respeito e a protecção da vida, da dignidade e da propriedade de todos os cidadãos que vivem no espaço territorial de Angola;
·         Não ter ficado claro se na realidade existe ou não formalmente uma directriz que sustente o impedimento de se fazer o levantamento em divisas e obrigue que seja feito em moeda local ao câmbio do banco, do dia, e tão pouco quem a emana;
·         É nítido haver um enorme poder discricionário por parte do banco para decidir sobre quem pode ou não pode usufrir das divisas;
·         Avalia-se que pela enorme partilha e discussão do assunto nas redes sociais, a mesma questão tem vindo a ser prática em diferentes bancos comerciais, afectando e indignando um elevado número de cidadãos;
·         É visível, pelas mesmas razões apontadas no parágrafo anterior, que a maioria dos afectados por este tipo de actitudes não tem exercido cabalmente o seu direito, aceitando o facto sem ver mecanismos reais de reclamação;
·         Os posicionamentos públicos do BNA contrariam realmente as actitudes dos bancos comerciais aqui descritas;

Solicito do BNA o seguinte:

1.       Que seja advertido ao banco MILLENNIUM Angola para que nunca mais me impeça de fazer a movimentação dos valores da minha conta em Euros que já há alguns anos possuo naquele banco.
2.       Que tome as medidas cautelares para impedir a continuidade destas práticas através de documento com poder jurídico que formalize os direitos dos cidadãos e as responsabilidades dos bancos comerciais quanto ao acesso e movimentação de divisas pelos cidadãos, através dos referidos bancos;.
3.       Que os bancos comerciais sejam obrigados a fixar tais orientações em local visível de todas as suas agências;
4.       Que sejam realmente tomadas medidas responsabilizatórias contra os bancos que violem tais princípios, normas e procedimentos;

Antes de terminar quero informar que permitirei a máxima divulgação desta carta e que a mesma sirva para provocar o debate e estimular as vítimas de actos idênticos a reclamarem publicamente para que possamos todos contribuir para a construção duma Nação angolana onde reine a justiça e a paz social.

Sem mais de momento e sabendo da atenção que o Exmo. Sr. Governador dará ao assunto aqui transcrito e o seu devido encaminhamento, aceite as minhas humildes saudações.

___________________________
Encontre aqui todos os documentos do processo: 

https://www.flickr.com/photos/quintasdedebate/sets/72157651396792067/






06/04/2015

ADMINISTRAÇÃO MUNICIPAL DA CATUMBELA QUER DEMOLIR MAIS DE 500 HABITAÇÕES NA PRAIA BEBÉ


Conforme lutamos para construir as nossas casas, é conforme vamos lutar para defendê-las, disse a população.

Reportagem de: Domingos Mário
Revisão de: José Patrocínio

São mais de 500 casas com minimamente 7 pessoas por cada, e aproximadamente 300 terrenos em construção, no bairro Vitula, pertencente à comuna da Praia Bebê, no município da Catumbela. O Local está dentro de uma área com mais de um milhão e quinhentos mil metros quadrados (1.500.000 m2 ), e a 400 metros de distância da beira-mar.

Segundo a população da área afectada, no dia 17 de Março, apareceram alguns fiscais no bairro, e marcaram aquelas casas e terrenos com tinta vermelha, e com a palavra “DEMOLIÇÂO”, o que pôs as pessoas muito preocupadas. Mais tarde apareceu o administrador daquela comuna, o senhor José Numãla Ecundi, que alegou ter recebido ordens da administração municipal chefiada pela senhora Filomena Pascoal, para desalojar o pessoal e demolir aquelas casas em uma semana. A população insatisfeita com o aviso,  marcaram imediatamente uma reunião com o mesmo, que teve lugar no dia 05 de Abril  naquele bairro, com o objectivo de receberem melhores esclarecimentos.

Na reunião as pessoas questionaram, porque motivos a administração decidiu desalojar a população, se aquela área não foi afectada pelas chuvas? Para aonde as pessoas serão transferidas? Quais são as condições que alberga o local de reassentamento? Como será a fonte de rendimento das famílias, se a maioria se dedica principalmente a agricultura e a pesca? Como será a situação escolar das crianças?


Respostas do administrador

Quando tomou a palavra, o administrador respondeu que, o objectivo dos desalojamentos e demolições das casas, é para dar lugar a interesses privados que também não tem nenhum conhecimento, visto que só recebeu ordens; as famílias desalojadas serão transferidas para a zona alta, próximo do local de reassentamento das vítimas das chuvas do dia 11 de Março. Quanto às condições do local, o mesmo ainda não está preparado visto que é tudo novo, simplesmente encontrarão tendas, de momento não existem escolas, e nenhum outro serviço, mas com o tempo existirão. E ainda quando a questão da sustentabilidade das famílias, o mesmo não soube responder, porque não trazia nenhuma informação.


Decisão final da população.

Depois das respostas do administrador, a população respondeu com a seguinte questão: se o governo vem aqui nos desalojar por estarmos a 400 metros da beira do mar, porquê não vai também nas áreas que estão mais próximas, como na Restinga, Compão, Cabaia, o palácio do governador etc, onde a maioria das estruturas estão a menos de 10 metros do mar?

O governo cria as suas políticas, mas não prepara condições para suportarem estas políticas, estamos a lutar para reduzir a pobreza, mas as pessoas pobres estão ficando cada vez mais pobres.

As pessoas mais antigas daquele bairro estão lá há mais de 70 anos, e foi em 2010 que a administração instalou-se naquela área com o objectivo de melhorar e não piorar as condições de vida das pessoas, e afinal não sabiam o que estava por trás da governação e só agora se aperceberam.

Foi com muita luta e sofrimento que conseguiram adquirir aquelas terras e construir as suas casas, e muitos para conseguirem realizar o sonho de casa própria, tiveram de passar tempos e tempos à fome, e muitos ainda já cumpriram penas de prisão, por defenderem aquele bairro.

Quando viram os fiscais a pintarem as casas das pessoas, pensaram que seriam transferidos para locais já equipados, com boas condições de habitabilidade e saneamento básico, mas depois da resposta do administrador, as pessoas decidiram ficar nas casas que tanto lutaram para adquiri-las e estão preparadas para o que der e vier.

Salientaram ainda que enquanto o governo não reunir boas condições de realojamento, não poderão sair, e se alguma máquina tentar demolir alguma casa terão de matar primeiro os moradores, só assim poderão destruir as suas casas.

Disseram ainda que estão preparados para recorrer a outras instâncias como as ONGs, partidos da oposição, instituições de defesa dos DHs a nível internacional, para lhes ajudarem a não piorar as suas condições de vida.

A população questionou ainda, se Angola é um país democrático, porque é que acontecem injustiças como estas?

O administrador por sua vez, prometeu levar aquelas opiniões para os seus superiores, para possíveis análises e melhoramentos.