26/06/2015

NOVO JORNAL – GRANDE ENTREVISTA COM JOSÉ PATROCÍNIO

“Antes era um orgulho ser da polícia, hoje é uma vergonha”
É uma das vozes mais inconformadas e críticas do estado dos direitos humanos no país, mas mais do que isso, assume-se como um defensor confesso do país que o viu nascer. No Lobito, onde nasceu em 1962 e reside, e de onde respondeu ao nosso questionário via mail, José Patrocínio, coordenador da OMUNGA, associação angolana promotora de acções em prol e defesa dos direitos humanos e culturais, não poupou nas críticas à Polícia Nacional, ao Ministério Público e à forma como se conduz o processo democrático em Angola. Reagindo à detenção dos jovens activistas acusados de pretenderem “destituir o governo” e “perpetrar um golpe de Estado”, o activista lamenta o facto e considera que “está cada vez mais claro que, infelizmente, esta instituição que denominamos por polícia, se torna mais cobarde, bruta, arrogante e imbecil”.
Luanda e Benguela, e agora nos últimos meses alguns casos estenderam-se também para as províncias do Bié e Huambo, têm sido palco de alguma convulsão no que ao activismo cívico diz respeito. Esta subida de tom das autoridades em relação aos direitos humanos é sinónimo de que a democracia que se estabelece no país ainda manca?
Primeiro teríamos que reflectir sobre o conceito de democracia e se isso, esse conceito, se aplicaria a Angola. Conforme entendo, democracia é antes um processo do que é um Estado em si, perpétuo no tempo. Ao falarmos de democratização, todas as sociedades vivem esse processo, já que é humano e existencial. O que acontece é que em todas as sociedades, sendo um processo, conflitua-se com forças a favor e contra. Assim são os processos. E cada processo, sendo cada processo dentro desse enorme processo, tem mais ou menos forças pró ou contra. Como um rio procurando caminhos.
Não querendo filosofar, obviamente que o nosso processo (localmente entendível) depara-se com inúmeras e poderosas forças contrárias. Aliás, entendíveis. Não aceitáveis! As forças contrárias são fortes já que detêm neste momento os diferentes poderes. O poder do executivo, decidindo e impondo as medidas de gestão. O poder legislativo, brincando com o fabrico de leis e de determinação de políticas. O poder económico/financeiro, num esquema claro de promiscuidade entre o político e os interesses pessoais e privados. O poder militar e de repressão, com um também abusivo uso da força como garante da protecção de toda esta palhaçada e, pior que tudo, o poder judiciário. O uso abusivo das instituições do judiciário na defesa e manutenção do sistema, como ferramenta de linha da frente na oposição ao processo de democratização.
O que é que na vossa opinião tem legitimado essa subida de tom por parte das autoridades?
São as contradições internas que provocam mais oposições, como a situação de pobreza e de empobrecimento acelerado da maioria da população, confrontada com o enriquecimento ao mesmo ritmo da oligarquia no poder ou seus satélites, e enquanto falta de resposta, a falta de criatividade dos que dominam a situação em procurar outros caminhos como o da negociação e o da participação. Neste contexto, obviamente que fica claro que as forças opostas dentro do processo de democratização serão mais violentas que nem um pedregulho no percurso dum rio. Só que neste caso, no nosso, ele não só é um obstáculo ao curso mas é um repressor ao mesmo tempo.
Não lhe parece que a acusação de que estão a ser alvo os jovens – de “rebelião e atentado ao Presidente da República” – é de algum modo desproporcional em relação aos meios citados até agora como prova do alegado crime cometido pelos jovens que teriam sido apanhados em flagrante delito?
Bom, eu até me rio deste facto, de ser tão flagrantemente patético. Mas ao mesmo tempo animo-me pelo que anteriormente argumentei, o sistema ter desde já perdido a sua capacidade criativa e sentir-se em flagrante pesadelo que ele próprio construiu.
Não acha displicente da parte do Serviço de Investigação Criminal (SIC) julgar que com fascículos e meios informáticos se promovem “actos tendentes a alterar a ordem e a estabilidade públicas”, como afirmou o comunicado dos SIC?
Bom, na realidade poderíamos entender que o uso desses meios poderiam obviamente provocar ou despoletar algum acto que tendesse à alteração da ordem e da estabilidade públicas. Mas devemos entender duas questões: Primeiro, isto encaixa-se neste caso? Segundo, não será discutível a necessidade ou não de se alterar a ordem e a dita estabilidade públicas num contexto como o nosso? Se calhar o Caetano e a PIDE diriam o mesmo que agora nos estão a dizer. Mas afinal a luta de libertação e o golpe do 25 de Abril não foram "actos tendentes a alterar a ordem e a estabilidade públicas" de então e do então sistema e regime? Foi isso um crime ou uma necessidade política concreta? Se me disserem que o regime está aberto à negociação e à participação, então estou completamente de acordo que nada disso é necessário. Mas num regime como o nosso, obviamente que sou também apologista que só o chocalhar das estruturas que o suportam podem conduzir o processo de democratização de forma fluida e integral.
A polícia tornou-se numa instituição cobarde, bruta, arrogante e imbecil
Por exemplo, aquando das buscas e apreensão em casa de Luaty Beirão, pelo que se soube através da imprensa, foi pedido pela família o direito de solicitação de um advogado, entretanto, ignorado pelos agentes da polícia. Há claramente uma violação de um direito reservado a qualquer cidadão...Quem devia pôr cobro a isso?
Quem deveria pôr cobro a isto seria o próprio violador se ele cumprisse a sua missão e a sua real responsabilidade. Cabe à procuradoria velar pelo respeito da lei e pela protecção dos direitos dos cidadãos, dentro da protecção do próprio Estado. Quando falamos neste papel da Procuradoria de protecção dos interesses do Estado, subentendemos que um dos seus componentes deste mesmo Estado são os seus cidadãos. São eles que num território definem as regras de relacionamento, definem os seus símbolos e constituem as instituições que gerem e os representam. Então a procuradoria ao ter a obrigatoriedade de proteger os interesses do Estado é obrigada a proteger os interesses dos cidadãos, e não apenas de uns que se escudam nas instituições como a da Presidência da República
O problema está nas “ordens superiores” ou nalguma insuficiência que as autoridades, principalmente policiais, apresentam sobre o papel das instituições da sociedade civil?
Está cada vez mais claro que, infelizmente, esta instituição que denominamos por polícia, se torna mais cobarde, bruta, arrogante e imbecil. Isto em todo o mundo. Ela procede de igual forma, actualmente, quer em países que possamos considerar mais de esquerda como nos de direita, nos denominados democráticos como nos ditatoriais. Aqui é um ponto importante de reflexão. Como instrumentalizámos e brutalizámos este espaço. Como poderemos reconquistar a sua própria lógica. Antes era um orgulho ser da polícia, dos bombeiros ou do exército. Eram exemplos de coragem, de protecção. Hoje é uma vergonha. Ao se ter brutalizado esta instituição retirou-se dela o racional e, tal que nem uma fera, ataca à ordem do seu adestrador.
O advogado Arão Tempo foi recentemente impedido de se deslocar a Benguela por ordem do sub-procurador da República em Cabinda. Uma situação que não envolve directamente a polícia mas sim o Ministério Público.  Parece haver aqui um contra senso...É um outro mau exemplo?
Na realidade Arão Tempo foi impedido de viajar para Benguela a nosso convite. É apenas mais um exemplo de como o poder judiciário se vai cada vez mais auto-desmascarando-se como uma ferramenta de manutenção do sistema em que cidadãos, usurpando-se do poder, o utilizam abusivamente para salvaguardar os seus apetites e interesses pessoais.
A Omunga tem feito denúncias de várias situações de alegada arbitrariedade. Tratando-se de um assunto que envolve direitos fundamentais dos cidadãos e de interesse do próprio Estado, como têm reagido a isso as entidades governamentais em Benguela?
Tal como as relações entre pessoas, sempre temos pontos de convergência e pontos de divergência. Pontos de aproximação e pontos de afastamento. Infelizmente, o livre arbítrio a que se permite aos cidadãos que ocupam cargos de poder, leva muitas vezes, para além das relações que poderiam ser correntes, a ambientes de conflituosidade. O mesmo acontece aqui em Benguela. Por exemplo, o ex-governador provincial, Armando da Cruz Neto, conforme foi (em limitada medida) um exemplo no assunto de direito à habitação como a construção, por exemplo, do único bairro social em Angola para moradores de rua, ao mesmo tempo andou a distribuir terras sem quaisquer critérios legais. Assim temos um enorme conflito no bairro do Golfe, na zona alta do Lobito em que quase uma centena de famílias se conflitua com a cidadã Nádia Furtado, filha da então procuradora-geral adjunta e parente do ex-chefe do Estado Maior General das FAA, já que esta se considera titular da área por ter recebido os tais terrenos do então governador.
O José Patrocínio vem-se queixando de ser vítima de ameaças e inclusive de atentados...A polícia ou o Ministério Público já se pronunciaram alguma vez sobre o facto?
Eu não me queixo de ser vítima de ameaças ou atentados. Eu digo que fui vítima de assaltos estranhos e de que tivemos acesso à informação de que poderia ter a minha vida em risco. Na realidade, em relação a este assunto, todos os representantes das instituições que contactámos, mostraram-se preocupados e prometeram tomar as devidas medidas de investigação e de protecção. No entanto não temos qualquer informação que demonstre que tais medidas tenham sido consideradas e aplicadas.
“É hora de dizer ‘sai daí’”
Fala-se numa polícia que não é republicana. Não há aqui, por um lado, uma dificuldade em abordar estes problemas frontalmente com a polícia?
Não entendo muito bem o que é isso de polícia republicana. A ideia de se necessitar de polícia e de desviarmos os nossos próprios recursos, que não são nada poucos, para a mesma, apenas se liga ao conceito de protecção do indivíduo, do colectivo, do seu território (onde e conjuntamente com o qual se forma o Estado) e das instituições criadas e imaginadas por estes indivíduos e por este colectivo. Só que é tipo o velho ditado: "O feitiço virou-se contra o feiticeiro". Esta instituição forjou-se não na defesa dos direitos e interesses maiores dos indivíduos e da colectividade enquanto um todo, mas num instrumento de protecção de apenas dos interesses de uns poucos, mesmo sendo os agentes, os que constituem esta corporação, vítimas deste mesmo sistema.
Não acha que é chegada a hora das organizações da sociedade civil adoptarem uma outra postura junto dos órgãos da polícia, incluindo-a, por exemplo, nas vossas prioridades nas acções de sensibilização, de modo que ela seja a primeira a perceber os limites de actuação no âmbito dos direitos humanos?
É hora de mudanças muito mais profundas do que este simples processo de abstracta consciencialização e de sensibilização. É hora de construirmos uma Angola de todos levando aos tribunais quem esteja contra a corrente. “É hora de dizer basta e chega”. É hora de dizer "sai daí!"

Se Luanda se queixa, como é agora prova, do exercício das liberdades no âmbito dos direitos humanos, como respira Benguela nesse sentido?
Infelizmente respira a mesma poluição de Luanda e do resto do país. Com mais ou menos laivos de aparente pacatez diária. Para mim, sinceramente, só existe uma solução, para começarmos a usar positivamente as nossas energias neste processo. É o nosso concidadão José Eduardo dos Santos abster-se do poder e deixar de nos impedir que todos nós sejamos parte e produto do processo de democratização do país, que significa obviamente em processo de reencontro e de pacificação real.

Nok Nogueira

25/06/2015

ESPOSA DE MARCOS MAVUNGO VISITA COMUNIDADE NO BAIRRO DO GOLFE NO LOBITO EM LITÍGIO PELA POSSE DE TERRA


A 24 de Junho, a equipe da OMUNGA visitou a comunidade no bairro do Golfe, constituída por cerca de 100 famílias que se encontra em conflito pela posse de terras com a cidadã da Administração Municipal do Lobito, Nádia Furtado. De acordo às informações a que temos acesso, Nádia Furtado garante que os terrenos são seus tendo recebido do ex governador provincial, Armando da Cruz Neto.

Por outro lado, Nádia Furtado é filha da então Procuradora-geral Adjunta, Paula Furtado e parente de Francisco Pereira Furtado, ex chefe do Estado Maior General das FAA. Por outro lado, Armando da Cruz Neto, para além de ser o ex Governador da Província de Benguela é um dos queixosos no processo contra Rafael Marques no caso dos "Diamantes de sangue".

Na visita, participaram também activistas da OHI, uma representante da OSISA e a esposa do activista Marcos Mavungo preso em Cabinda.

A OMUNGA tem acompanhado este caso a pedido dos moradores. Nesta conformidade, dirigiu uma carta à Nádia Furtado para solicitar um encontro com o propósito de ouvir os seus argumentos e desenvolver um processo de negociação. Infelizmente não obtivemos até ao momento qualquer resposta. Por outro lado, durante uma audiência, fez a entrega do processo ao actual governador provincial de Benguela, Isaac dos Anjos que também ainda não deu qualquer pronunciamento.


AJPD APELA PARA QUE SEJAM LIBERTADOS TODOS OS ACTIVISTAS E CESSE A PERSEGUIÇÃO AOS DEFENSORES DE DIREITOS HUMANOS


DETENÇÕES ARBITRÁRIAS, VIOLÊNCIA POLICIAL 
E DESAPARECIMENTOS DE ALGUNS
JOVENS ACTIVISTAS CÍVICOS

Tendo tomado conhecimento através  dos testemunhos do Grupo de Jovens Estudantes Universitários, activistas de direitos humanos, de alguns seus familiares e  dos Meios de Comunicação Social da detenção arbitrária 13 jovens que se encontravam reunidos num encontro de reflexão pacífica sobre a situação dos direitos humanos e do actual estado da governação em Angola, no dia 20 de Junho de 2015, (sábado), em Luanda.

A Associação Justiça, Paz e Democracia (AJPD) ALERTA a sociedade angolana, ao Corpo Diplomático representado em Angola e a sociedade em geral do seguinte:

1.       Que continuam desaparecidos ou em parte incerta alguns jovens depois de terem sido detidos por Agentes do Serviço de Investigação Criminal e dos Serviços de Informação e Segurança do Estado, no sábado, estando todas as pessoas, obviamente, em perigo de vida;

2.       Segundo informações dadas por testemunhas, depois das detenções também foram apreendidos alguns bens dos detidos, entre os quais material informático (computadores, telemóveis, pen drives), agendas, máquinas fotográficas e dinheiro.  

3.       Que a Polícia e Agentes dos Serviços de Informação e Segurança continuam a vigiar e fazer buscas e apreensões de outros jovens que fazem parte do movimento e que estavam ausentes na referida reunião ou ligados a eles; além disso, neste âmbito, incluem-se também actos de intimidação a outros activistas dos Direitos Humanos não ligados ao movimento;

4.       Que já foram localizados, até ao momento, apenas 3 jovens, nomeadamente, Luaty Beirão, Manuel Nito Alves e Nuno Dala, levados, de acordo com as informações a que tivemos acesso, na 29.ª Esquadra e que, durante as detenções, os jovens sofreram torturas físicas e psicológicas, bem como foram ameaçados de morte;

5.       Estas acções levadas a cabo pela Polícia Nacional e por elementos afectos aos  Serviços de Inteligência e Segurança de Estado contrariam a Constituição, Lei da Prisão Preventiva em Instrução Preparatória, a Lei de reguladora das Revistas, Buscas e Apreensões e os Tratados Internacionais de Direitos Humanos ratificados pelo Estado Angolano, os artigos seguintes:

·  «Toda pessoa privada de liberdade deve ser informada, no momento da sua prisão ou detenção, das respectivas razões e dos seus direitos nomeadamente: ser informada sobre o local para onde será conduzida; informar a família e ao advogado sobre a sua prisão ou detenção e sobre o local para onde será conduzida; consultar o advogado antes de prestar declarações; ser conduzida perante o magistrado competente para confirmação ou não da prisão e de ser julgado nos prazos legais ou libertada. [Artigo 63.º, alíneas b) e c) e) e h) da CRA]. E nada disso está a ser respeitado.

·  «Todo o cidadão tem direito à liberdade física e a segurança individual. O direito à liberdade física e à segurança individual envolve ainda: a) o direito de ser sujeito a quaisquer formas de violência por entidades públicas e privadas; b) o direito de não ser torturado nem tratado ou punido de maneira cruel, desumana ou degradante». [Artigo 36.º n.º 1,3 a) e c)].

·  « A entrega dos detidos em flagrante delito no magistrado do Ministério Público competente deve ser feita no próprio dia em que foi efectuada a prisão (…)[Artigo 9.º n.º 1 da Lei da Prisão Preventiva].

·  « 1. Antes de começar a busca, é entregue à pessoa que tiver a posse do lugar onde vai realizar-se, uma cópia do despacho que a ordenou.» [artigo 6 da Lei reguladora de Revistas, Buscas e Apreensões].

·  «Todos têm o direito de exprimir, divulgar e compartilhar livremente os seus pensamentos, as suas ideias e opiniões, pela palavra, imagem ou qualquer outro meio, bem como o direito e a liberdade de informar, de se informar e de ser informado, sem impedimentos nem discriminações» [n.º 1 do artigo 40.º da CRA].


·  « É garantida a todos os cidadãos a liberdade de reunião e manifestação pacífica e sem armas, sem necessidade de qualquer autorização e nos termos da lei». [n.º 1 do artigo 47.º da CRA].

·  « Todos têm direito de apresentar, individual ou colectivamente, aos órgãos soberania ou quaisquer autoridades, petições, denúncias, reclamações ou queixas, para defesa dos seus direitos, da Constituição, das leis ou interesse geral (...)» (artigo 73.º da CRA).

·  «Todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão, o que implica o direito de não ser inquietado pelas suas opiniões e o de procurar, receber e difundir, sem considerações de fronteiras, informações e ideias por qualquer meio de expressão» (Artigo 19.º da Declaração Universal dos Direitos Humanos).

·  « 1. Ninguém pode ser inquietado pelas suas opiniões. 2. Toda e qualquer pessoa tem direito à liberdade de expressão; este direito compreende a liberdade de procurar, receber e expandir informações e ideias de toda a espécie, sem considerações de fronteiras, sob forma oral e escrita, impressa ou artística, ou por qualquer outro meio à sua escolha» (Artigo 19.º do Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos).

·  «1. Toda a pessoa tem direito à informação. 2. Toda a pessoa tem direito de exprimir, de difundir as suas opiniões no quadro das leis dos regulamentos» (Artigo 9.º da Carta Africana dos Direitos Humanos e dos Povos).

Perante o quadro exposto e com fundamento nos artigos 2.º, 21.º l) e  73.º  todos da CRA, a AJPD alerta e apela ao seguinte:

1.        Ao Executivo angolano, liderado pelo Presidente José Eduardo dos Santos, a instar a Polícia Nacional a respeitar os direitos, liberdades e garantias fundamentais dos cidadãos consagrados na Constituição Angolana e a prestar o devido esclarecimento à família dos jovens, até agora em parte incerta e sobre as condições de segurança e integridade físicas;

2.       Apela ao Procurador- Geral da República a promover a defesa da legalidade democrática conforme sua obrigação constitucional, de forma imparcial e apartidária;
3.       Apela aos juízes e agentes do Ministério Público a agirem com independência e imparcialidade observando o respeito pela Constituição e, sobretudo, dos direitos e liberdades dos cidadãos e para que não haja manipulação de provas criminais;  
4.       Aos órgãos de comunicação do Estado a desempenhem as suas funções de forma apartidária, imparcial, pluralista e objectiva, promovendo o estrito respeito pela lei e não o contrário, bem como a promoção dos valores democráticos.
5.       Apela, igualmente, a sociedade em geral que, no exercício dos direitos previstos na CRA, a denunciarem este atropelos a Constituição e a criminalização do exercício da cidadania e dos direitos humanos. 
6.       Apela para que sejam libertos de todos os activistas e a cessão de perseguição e intimidação aos activistas dos Direitos Humanos.


Pela Direcção da AJPD


Lúcia Silveira
(Presidente)

Luanda, 22 de Junho de 2015.


OPEN SOCIETY EXIGE LIBERTAÇÃO IMEDIATA E INCONDICIONAL DOS ACTIVISTAS PRESOS


COMUNICADO

O GOVERNO ANGOLANO PRENDE JOVENS ACTIVISTAS POLÍTICOS E DEFENSORES DE DIREITOS HUMANOS EM ANGOLA

No Sábado dia 20 de Junho, os Serviços de Investigação Criminal (SIC) e a Polícia Nacional prenderam e encarceraram treze jovens activistas políticos e defensores de direitos humanos, numa residência onde discutiam questões políticas relacionadas com o estado da democracia em Angola. Depois de serem presos cada um deles foi levado para a sua residência algemados e a polícia fez buscas e confiscou equipamento informático e documentos, nomeadamente; computadores, máquinas fotográficas, agendas pessoais, revistas, documentos vários e cartões de recarga telefónica que encontraram. Muitos destes equipamentos e documentos são pertença de membros da família. A operação policial aconteceu sem qualquer “mandado de prisão ou de busca” e muitas vezes a polícia armada usou violência para entrar nas residências.

De acordo com uma nota de Imprensa tornada pública, sábado, dia 20 de Junho, pelo SIC) , assinada pelo seu Director Geral, Eugénio Alexandre, assumiram que realizaram várias diligências nesta cidade de Luanda, que culminaram na detenção em flagrante delito de 13 (treze) cidadãos nacionais que preparavam actos tendentes a alterar a ordem e a segurança pública do país.” Outras acusações contraditórias foram avançadas pelas autoridades policiais contra os activistas tais como Alteração da Ordem e Segurança Pública do País”;  “Tentativas de Golpe de Estado”; “ Alteração da Ordem Constitucional”, “Rebelião e Tentativa de Derrube do Presidente da República”,.”De acordo com outras fontes, foram presos até hoje perto vinte activistas e outros andam escondidos por causa das buscas e perseguições policiais.

Os activistas encontram-se detidos e dispersos por várias esquadras da Polícia. O SIC recusa-se a declarar os nomes e informar os familiares e o público em geral o paradeiro certo dos activistas detidos. Foram no entanto apurados os nomes dos seguintes jovens activistas detidos:

  1. Henrique Luaty Beirão,
  2. Domingos da Cruz
  3. Manuel Chitombe Nito Alves

Localizados na 29ª esquadra, adjunta à DNIC (Município do Kilamba Kiaxi -Bairro Neves Bendinha;

  1. Nuno Álvaro Dala – supostamente preso na Esquadra do Katin-tom no Bairro Kassekel;
  1. Afonso Matias (Mbanza Hanza) – supostamente preso na subunidade afecta à 9ª Esquadra no Bairro do Sambizanga – Sucanor;
  1. Nelson Dibango – supostamente preso na esquadra da Centralidade do Kilamba Município de Belas;
  1. Hitler Samussuko – supostamente preso na Esquadra do bairro Quifica, Município de Belas;
  1. Albano Bingo – supostamente preso na 10ª Esquadra no Município do Cazenga – Tala Hady;
  1. Cedrick de Carvalho – supostamente preso na Esquadra do bairro da Fubu no Muncípio do Kilamba Kiaxi;

Continuam desaparecidos ou em parte incerta outros jovens activistas que depois de detidos por Agentes doSICe da Polícia Nacional foram levados para lugar incerto e neste preciso momento correm perigo de vida e são:

  1. Nicolas o Radical
  2. Arantes Kivuvu
  3. Valdemiro
  4. Sheik Hata
  5. Inocêncio Drux
  6. Osvaldo Caholo

Alertamos por isso a opinião pública nacional e internacional, governos democráticos, instituições nacionais e internacionais de protecção e defesa dos direitos civis e políticos, direitos humanos e liberdades de consciência e expressão que estas detenções violentam o postulado na Constituição e demais leis nacionais e tratados internacionais bem como os compromissos assumidos pelo Estado Angolano no respeito e garantia dos direitos e liberdades fundamentais dos cidadãos.

Não pode existir democracia sem o respeito e a proteccão dos direitos humanos e as liberdades fundamentais. Defendemos por isso, que o Governo Angolano deveria ser o garante e não o violador. Regista-se desde 2010, por sinal após a aprovação da Constituição, um “crescendo” institucional de violações sistemáticas dos direitos humanos e das liberdades por parte do Governo Angolano que usa as forças de Segurança incluindo o Exército para reprimir e violentar brutalmente todos cidadãos que conscientemente tentam afirmar a sua cidadania participando duma forma apartidária nos assuntos políticos, sociais e económicos do país.

Apelamos à comunidade nacional e internacional que a situação é de alerta e profunda preocupação tendo em conta as virtudes maiores do Executivo Angolano de eliminação física de cidadãos pacíficos (casos Kassule e Kamulingue, Manuel Ganga e as execuções sumárias e extrajudiais dos fiéis  da Igreja do Sétimo Dia Adventista “Luz do Mundo” no monte Sumi) acrescendo ainda as contínuas detenções e julgamentos de activistas e jornalistas como são os casos de William Tonet, Rafael Marques, Raúl Tati, Francisco Lwemba, Marcos Mavungo, António Paca e muitos outros.

O Governo Angolano não pode ser parte da comunidade e institucionais internacionais (Conselho de Segurança das Nações Unidas, Conselho dos Direitos Humanos das Nações Unidas, Comissão Africana dos Direitos Humanos e dos Povos) quando não respeita nem protege os direitos humanos humanos e as liberdades fundamentais do seu próprio povo.

Exige-se a libertação incondicional e urgente de todos os presos de consciência a devolução de todos os bens confiscados, a cessação imediata de perseguições  políticas e dos activistas políticos e defensores dos direitos humanos.

Luanda, 24 de Junho de 2015

Elias Mateus Isaac,
Director, Fundação Open Society –Angola

24/06/2015

UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA SOLICITA DO GOVERNO DO BRASIL O ACOMPANHAMENTO DAS DETENÇÕES DE ACTIVISTAS EM ANGOLA

Domingos da Cruz em Benguela numa das edições do Quintas de Debate

Excelentíssimo Senhor Embaixador do Brasil em Angola,

O Centro de Ciências Jurídicas e o Programa de Pós-Graduação em Ciências Jurídicas (PPGCJ) da UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA, BRASIL, vêm, através deste documento, exprimir sua enorme preocupação com os fatos ocorridos em Luanda, Angola.

Chegou ao nosso conhecimento, através de mensagens enviadas por colegas professores universitários desse país e por notícias da Internet (como este site, http://www.redeangola.info/localizados-tres-dos-cercade-20-activistas-detidos/), queativistas de direitos humanos estariam sendo presos e acusados de crimes de rebelião e crimes contra o Presidente da República. Entre os detidos está Domingos da Cruz Maninho, cidadão angolano, mestre pelo nosso PPGCJ-UFPB, e outros mestres estariam sendo ameaçados.

Este Centro de Ciências Jurídicas possui convênio de mútua cooperação acadêmica e técnico-científica com a Universidade Lusíada de Angola, por intermédio do qual já formou 12 mestres em Direitos Humanos para aquela Instituição. A prisão do jornalista e professor Domingos da Cruz Maninho deixou a Universidade Federal da Paraíba em estado de perplexidade.

Assim, vimos, por meio deste documento, solicitar dessa Embaixada que realize gestões junto às autoridades locais angolanas, no sentido de acompanhar o que se passa e de evitar desdobramentos nocivos à causa dos Direitos Humanos, à liberdade de opinião, à docência e à pesquisa acadêmica.

João Pessoa (Brasil), 23 de junho de 2015.


Professora Doutora Maria Luiza de Alencar Mayer Feitosa – Diretora do Centro de Ciências Jurídicas da Universidade Federal da Paraíba

23/06/2015

ARÃO TEMPO IMPEDIDO DE VIAJAR NO AEROPORTO DE CABINDA


Lobito, 23 de Junho de 2015.

DECLARAÇÃO PÚBLICA

ARÃO TEMPO IMPEDIDO DE VIAJAR NO AEROPORTO DE CABINDA
  

É com enorme preocupação que a OMUNGA vem pela presente informar à comunidade nacional e internacional que o advogado e activista Arão Bula Tempo foi hoje, 23 de Junho de 2015, impedido de viajar por ordem do Sub-Procurador da República em Cabinda, António Nito.

O mesmo devia-se deslocar a Benguela, a convite da OMUNGA, conjuntamente com a esposa do activista Marcos Mavungo que continua detido em Cabinda.

O propósito da visita a Benguela era o de poder facilitar um debate sobre "Autodeterminação dos Povos e as Autarquias: Perspectivas para Cabinda". Na agenda constava ainda a visita a uma comunidade que desenvolve um processo de luta pelo direito à terra, uma conferência de imprensa e entrevistas.

Esta visita enquadrava-se no programa da OMUNGA de solidariedade com os activistas de Cabinda.

De acordo ao Advogado Arão Tempo, nesta manhã, altura em que estava prevista a sua viagem, foi chamado pelo Sub-Procurador da República em Cabinda onde foi recomendado para não participar em qualquer reunião ou actividade, nem prestar qualquer declaração fora do âmbito profissional para evitar outras conotações que poderão eventualmente quebrar com o termo de identidade de residência.

Depois disso, recebeu a devida autorização para se deslocar para fora da província e remarcado o vôo para as 18 horas.

Já no aeroporto, verificou que o mesmo tinha um visível aparato militar e policial e foi depois avisado por um agente de que não poderia viajar.

Em resposta, Arão Tempo terá telefonado para o Sub-Procurador António Nito que lhe confirmou ter dado ordens nesse sentido já que tinha informações de que o mesmo iria participar numa actividade fora de Cabinda.

Arão Bula Tempo de 56 anos de idade, advogado e presidente do Conselho Provincial de Cabinda da Ordem de Advogados de Angola, fora detido, conjuntamente com o seu cliente, quando pretendia atravessar a fronteira para o Congo Brazzaville desde 14 de Março e libertado a 13 de Maio de 2015, estando em liberdade condicional.

.A OMUNGA condena veementemente mais este acto de flagrante violação dos Direitos Humanos, apelando à solidariedade de toda a sociedade.



José Patrocínio


Coordenador